Mikaela e o amor pela nossa terra

Qualquer lugar, por pior que seja, por mais que tenha problemas, será sempre amado por alguém. Será sempre amado e admirado pelos filhos daquela terra. E por mais que um dia eles partam para longe, as raizes ficam. As lembranças permanecem. O carinho, o amor não morrem. E a premissa “fale mal da minha terra e se verás comigo” habita muitos corações - gaúchos que o digam. 

Ontem, os filhos, admiradores e moradores de Barcelos - cidade do Amazonas - fizeram valer o “não fale mal da minha terra”, quando uma mulher postou em suas redes sociais o seguinte:




Mikaela não é filha da terra. Tampouco um dia pensou que moraria no interior do Amazonas. Mikaela foi parar em Barcelos porque casou com um militar e é assim que funciona: as esposas acompanham os maridos para onde são transferidos. Mikaela, seja qual for sua terra, sua profissão, sua vida, abdicou de tudo para acompanhar o marido no desafio de morar na Amazônia - cercada de água e floresta.

E, cá, vou te contar por experiência própria que não é fácil. Eu vim por amor, por curiosidade, por livre e espontânea vontade e te digo: não é fácil. Viver no Amazonas, para quem vem de fora, exige grande esforço. Quem manda aqui é a natureza. Em nenhum outro lugar do Brasil isso acontece com tanta força. E tem também o fator distância. Não é nada simples transitar de uma cidade para outra. Quem mora em outro lugar do país, pega o carro, o ônibus, a moto, a bicicleta e segue, para outra cidade, outro estado, outro país. Viver no Amazonas é viver sem transitar tão facilmente pelo seu território - e te digo: isso não é fácil. Não é fácil também quando se vive em lugares que os preços de verduras e frutas são muito acessíveis e se vai morar em lugar onde isso se torna caro e até mesmo raro. Poderia listar inúmeras diferenças que fazem do Amazonas um estado tão diferente do demais; que com suas características, múltiplas culturas, costumes, crenças e línguas poderia facilmente ser considerado um país a parte do Brasil. 

Se morar no Amazonas é bom ou ruim? Isso depende de cada um, o fato é que viver aqui para quem vem de fora, é um choque cultural inexplicável. Quando sai do sítio em que nasci para morar na cidade, levei um longo tempo para me acostumar com aquela vida e sempre pensava: É bem mais fácil para quem sai do interior acostumar na cidade, do que para quem sai da cidade, acostumar no interior. Sair de cidades brasileiras que vivem conectadas a outras cidades para ir morar no Amazonas, não é nada fácil. Da mesma forma que para quem sai do interior do Amazonas e vai morar em outra cidade brasileira, não é fácil. Muda clima, cultura, jeito de pensar, de viver, de agir e até de se vestir.

Ontem, Mikaela comemorou em sua rede social, a mudança, a transferência de cidade. Rapidamente vieram as críticas, os memes, os xingamentos. Grande parte, por filhos, admiradores e moradores de Barcelos que como eu e como muitos amam sua terra e morrem de orgulho por ela. Defendem-a com unhas e dentes. 

Primeiro, vi com maus olhos a publicação da Mikaela, mas egurei aquele impulso de julgar e procurei compreender a situação, afinal, sei bem o que é se adaptar no Amazonas. O fato é que nisso tudo, uma coisa me preocupou. Uma frase nas redes sociais me preocupou: “será que a Mikaela vai sair para comprar pão amanhã?”.

Preciso abrir um parênteses aqui para falarmos da gravidade e do risco que é a rede social, a Internet. A primeira morte por fake news já aconteceu no Brasil devido ao compartilhamento de informações e à onda de ódio que se criou sobre a vítima. Ela foi linchada e morta pela população por um ódio que se alastrou pela rede.

Em uma palestra, certa vez, Carpinejar disse que o grande problema do Brasil é você falar sua opinião, você debater com o outro, sem que o outro se doa. Todo mundo leva um comentário, uma frase, uma opinião para o lado pessoal, para o seu lado - e se ofende. Com tudo e com todos. A vida fica impossível assim. Foi por isso que Renato Aragão, o Didi, disse que está difícil se fazer humor neste país. 

A publicação de Mikaela, a meu ver, não ofendeu Barcelos. Dizer que é outro país já foi até título de livro de escritor renomado e nascido no Amazonas. Dizer que se está indo para a civilização tem a ver com as distâncias entre uma cidade é outra, o que torna o Amazonas um lugar com mais território do que gente. A hashtag sobre liberdade, acredito eu, está ligada ao fato de não conseguirmos nos locomover com tanta facilidade pelo estado e com outros estados. Para quem era acostumado com o ir e vir de uma maneira mais fácil, viver aqui significa estar preso, sem liberdade. Eu também me sinto assim e expressar isto não ofende o Amazonas - a meu ver.

Mas, é claro que para quem é filho da terra a interpretação não é esta. O coração dói, eu sei. Doeria em mim. Vocês têm o direito de não gostar, só precisam cuidar com a onda de ódio que se alastra pelas redes sociais e que pode causar consequências irreversíveis às pessoas. 
Caso contrário, nem Mikaela, nem João, nem Maria, nem você e nem eu que escrevo e expresso minha opinião poderemos continuar nos manifestando.







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