Aqui em cima, lá embaixo

Enquanto aqui em cima os motores roncam, lá embaixo as cores se encontram. O negro e o marrom. Uma resistência que encanta os olhos e faz lembrar a raça humana que ora se divide, ora se junta. 

Enquanto aqui em cima as nuvens são cortadas, lá embaixo a floresta, cada vez mais distante, se agiganta. Não há olhos e lentes que a abracem. Quanta perfeição.

Enquanto aqui em cima, sonho voar feito um pássaro dono da própria liberdade, lá embaixo a vida me ensina que ser livre é impossível. 
E assim, sigo: a passos largos, vagos, apressados e depois vagarosos a depender do dia, nem sempre com rumo, mas o tempo todo acompanhados por medos, sonhos, amores, dores, sabores, cores, flores. Puxa, quantos ores. 

Enquanto aqui em cima os pés saem do chão, lá embaixo a cabeça insiste em querer alcançar as nuvens num eterno sonho de criança que não se contenta em procurar desenhos. 
E, logo agora que posso pegar esse algodão pela janela, o sonho se vai por entre os dedos e desejo ter meus pés lá embaixo. Sempre quis o céu e agora desejo apenas a terra. 
Que coisa. A vida é mesmo muito estranha.




Vista aérea da cidade de Manaus. A água escura é o Rio Negro e a marrom, o Rio Solimões. Ao se juntarem formam o Rio Amazonas e o chamado encontro das águas - espetáculo da natureza apreciado na capital amazonense.
Fotografia: Keila Zanatto 

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