Sabe, Carpinejar, o sofá lá de casa...

Sabe, Carpinejar, o sofá lá de casa ficava coberto com uma toalha linda. Era linda porque além de ter o desenho de duas araras, uma azul, outra vermelha, tinha a função de esconder o rasgo enorme feito pelas crianças da casa - nós, eu e meu irmão principalmente. Bem ali, o sofá afundava. A bunda ia parar lá embaixo, como na privada.

Imagem: Google

Sabe, Carpinejar, o sofá lá de casa não era de tecido, couro ou qualquer coisa assim. Para completar a facilidade de estrago, ele tinha uma pequena camada de um plástico seco que rachava e descascava deixando o foro visível.

Sabe, Carpinejar, o sofá lá de casa riscava todo o chão de taquinho, mas riscava tanto que tirava o verniz. As marcas ficaram anos, encobertas pelo tapete, até o piso ser substituído, mesmo assim as marcas ficaram porque até hoje lembro da tristeza da mãe diante os riscos. 

Sabe, Carpinejar, o sofá lá de casa era pequeno, embora tivessem dois - um de três lugares e o outro de dois. Eu e meu irmão disputava sempre o mesmo: o maior, para poder deitar. Era aquele que a bunda afundava. O fato é que nessa disputa, um sentava no sofá disputado e o outro chorava - no caso, eu. Mais de duas décadas se passaram e posso sentir a dor dos socos que trocávamos, dos choros e das xingas da mãe.

Sabe, Carpinejar, o sofá lá de casa era a tristeza do Natal, porque toda vez que pedíamos algum presente, meu pai falava “tem coisas mais urgentes para comprar primeiro, precisamos um sofá novo.” O sofá era uma das vergonhas da mãe. Vira e mexe ela dizia que não dava para levar as visitas na sala com um sofá daqueles. 

Sabe Carpinejar, o sofá lá de casa não tinha pipoca nas beiradas porque esse ritual filme, sofá e pipoca nunca existiu lá em casa. A gente comia pipoca com chimarrão doce na área de casa, mas o sofá tinha farelos de pão e de bolacha com cheirinho de “ah, deixa mãe” e sabor de “só essa vez, sofá não é lugar de comer”. Às vezes, até grãos de arroz as araras escondiam. Era fruto das alegrias dos domingos porque domingo, era liberado almoçar na sala.

Sabe, Carpinejar, o sofá lá de casa já foi doado e substituído por um novo que permanece intato porque a vida passa e as crianças crescem. A gente não estraga mais o sofá e nem almoça nele aos domingos, porque a vida passa e as crianças crescem e vão cada uma ter o seu sofá e as suas crianças. 

Sabe, Carpinejar, o sofá lá de casa esconde tantas alegrias e memórias que nem eu sabia. Obrigada por reavivá-las e mostrar que um sofá rasgado e com restos de comida é sinônimo de família unida, de conversa e de companhia. Que o mundo descubra o quanto antes a importância do sofá.
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(Texto inspirado na palestra do escritor e poeta brasileiro Fabrício Carpinejar ao falar que hoje em dia as pessoas ficam cada uma em seu quarto e o sofá da sala intato como se ninguém nunca tivesse sentado. O sofá precisa estar rasgado, com pipoca, desarrumado porque isso é sinônimo de família, de amor.)

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