Desabafo de uma noite fria


O vento frio encontrou em mim um ótimo lugar para bater hoje. Não deu trégua um só minuto e estava cortante. Tremi o tempo todo. E ainda tem a noite. Eu não posso simplesmente levantar e sair por aí para me abrigar. Não tenho forças para isso. Gosto tanto do verão porque me adapto melhor a ele. E, embora alguns dias sejam muito quentes, sempre bate um vento gostoso, refrescante. Mas não é só isso. No verão as pessoas me parecem mais felizes. Saem para caminhar, tomar banho no rio e se reúnem aqui, nesta área, para tomar chimarrão, comer pipoca e jogar conversa fora. Elas não falam comigo, mas falam de mim. E eu gosto, fico feliz quando me olham. Gosto da companhia delas.

Imagem Google

Mas, agora chegou o inverno e elas não vem. Já falei. O vento aqui é cortante e todos ficam dentro de suas casas, no quentinho. Ao redor do fogão a lenha ou embaixo das cobertas. Enquanto aqui fora parece que o mundo é um fantasma. Tudo gelado. Sem vida. Sem barulho. Cores opacas. Chuva fina. Geada. Ah! Essa palavra. Não gosto nem de ouvir falar. Dias de geada doem muito. Dias de geada acabam comigo. Perco minhas forças. Dias de geada matam.

Não consigo entender como essas crianças gostam tanto das noites que dizem que vai gear. Elas ficam felizes. Como pode uma coisa dessas? Se alegrar com uma madrugada tão gelada. Mas, eu sei porque. Elas enchem uma forma, dessas que se faz picolé e que tem as tampinhas coloridas com a haste que serve como palito, com suco e colocam fora de casa. No outro dia acordam cedo, quando tudo ainda está branco e congelado e comemoram que o suco virou picolé na madrugada. Eles inventam cada coisa. Daqui eu vejo tudo.

O sol já sumiu atrás do morro e agora estou com mais frio ainda. A noite está chegando e não quero pensar como vai ser. Alguém ligou uma televisão aqui perto e pude ouvir que esta é para ser a noite mais fria do ano. Acho que não passo de hoje. As madrugadas aqui chegam a graus negativos. Às vezes me cobrem com um pedaço de pano, mas não é suficiente. O ar é muito, mas muito gelado. Não paro de tremer.

Já está escuro e as luzes já estão ligadas. Uma sombra chegou perto de mim. É uma mulher. Ela se agachou na minha frente, esticou os braços e me ergueu. Ela está me levando. Mal posso acreditar. Sinto um ar quente batendo em mim. Alguém se importa comigo. Alguém me ama e me deu a mão para escapar do frio. Que felicidade.

Agora já estou na casa dela e começo a me aquecer. Aqui dentro é gostoso. O fogão a lenha esquenta a casa toda. Ela me deu água para beber. Está um pouco gelada, mas eu nem me importo porque já estou recuperando meu brilho, minha vida. Me sinto no verão. Sinto a alegria do verão. No inverno sou só uma folhagem verde que treme de frio o dia todo. Sou como as demais e não chamo atenção. Ninguém me olha, ninguém comenta. Mas no verão não. Ah! O verão. Doce verão.

Não estou sozinha aqui dentro. Ela trouxe outros vasos de flor para passar a noite aqui. Amanhã, assim que o sol sair, vamos voltar para os nossos lugares lá fora e o dilema do vento frio vai voltar, mas não estou mais preocupada. Agora já sei que vou sobreviver a esta madrugada gelada e, quem sabe, ela me recolha nas próximas, até chegar o verão e eu poder curtir a noite lá no meu lugar. Ah! O verão. Sinto tanta paixão. Ele me deixa florescer e eu brinco com as cores. Ora sou cor-de-rosa, ora lilás. Sinto tanto amor nas tardes de verão. Gosto de ver as pipocas caírem no chão e ouvir o barulho do chimarrão quando termina. Roc. Roc. E, ah! Como eu amo...já te contei. Como eu amo quando olham para mim e falavam que estou linda.

Foto Enilde Zanatto

Este texto é uma homenagem à minha mãe Enilde que, incansavelmente, recolhe as plantas para dentro de casa sempre que o inverno chega e no outro dia, as leva para o sol. 

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