Lembranças de sexta-feira santa

Sem pensar no que a data significa para os católicos, sexta-feira santa na minha infância (leia-se até os 15 anos) era motivo de felicidade. A mãe, católica e seguidora dos costumes da religião não deixava a gente se mexer nesse dia. Não podia arrumar as camas e varrer a casa. Nem assistir TV. Muito menos ouvir músicas, mas o que era mais proibido ainda era brigar. Ah! Imagine um dia sem brigar com os seus irmãos. E ser proibido, então! Quando se é criança, proibido soa como: vai lá e faça justamente o contrário e então, era provocação atrás de provocação, tudo cuidadosamente escondido da mãe. E cá, entre nós, não arrumar cama, não precisar fazer as tarefas que tínhamos desde criança era felicidade sem tamanho, mas brigar a gente "precisava", fazia parte do cotidiano infantil e das regras que inventaram para os irmãos. 

Imagem: https://www.calendarr.com/brasil/sexta-feira-da-paixao/

Era também dia de rezar. Ir à igreja e de noite em casa rezar com uma vela acesa. Ah! Mas aquela vela tinha um atrativo que simplesmente hipnotizava a gente e com uma força sobrenatural nossos dedos iam brincar com ela. E assim, o dedo corria de um lado para o outro passando pelo fogo. Segundo minha mãe, se não tivéssemos fé, o dedo queimaria. Mais tarde entendi o significado da frase dela. Como se fossemos escultores de cera, nossos dedos levavam o palito de fósforo até a cera da vela e abriam buracos, faziam escavações e desenhos - era outro ato que a gente não conseguia controlar e a mãe vira e mexe interrompia a reza para chamar nossa atenção. 

Quando o sábado amanhecia, lá estavam as camas à espera da arrumação. Lá estava a vassoura ao nosso aguardo e lá estávamos eu e meus irmãos liberados para brigar. Conforme o tempo passou, algumas regras foram sendo deixadas de lado, mas as lembranças deste dia certamente nos acompanharão. 

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