Caçadores de um sonho

Ela já tinha visto inúmeras árvores. Pequenas, grandes, gigantes. Finíssimas e leves que parecem cair a cada sopro do vento; grossas e fortes que até uma motosserra sofreria para derrubá-las. E as cores então! A sua preferida: verde. E quantos tons existem. Verde-claro, escuro. Verde-limão, oliva, bandeira e mais uma infinidade que a humanidade nem consegue nomear e registrar. Mas, aos seus olhos, as árvores e suas tonalidades não passam despercebidas. Gosta de fotografá-las. Tem paixão pela floresta, pelo formato particular de cada árvore. Alice pensa que elas são como os seres humanos. Algumas podem até se parecer, mas cada uma é única – e especial.

Ela já tinha visto inúmeras árvores, mas nenhuma como aquela. Era algo extraordinário, mágico que ela não tinha palavras para definir e nem, provavelmente, encontrasse imagem semelhante na internet ou nas pinturas de Monet para compará-la. Não conseguia piscar os olhos. O movimento e a tensão à sua volta, haviam congelado. Estava sem qualquer equipamento que pudesse fotografá-la, então, ficou ali, parada. E enquanto todos corriam, gravou aquela imagem fantástica no coração. Depois de alguns segundos, pegou impulso e correu ao encontro da árvore como quem corre para dar um abraço em alguém que não vê a tempo.

A árvore tinha alguns bracinhos curtos ao redor do tronco que mais pareciam uma escada. Seu formato indicava anos de existência.  Há quantas décadas será que ela estava ali? Era uma árvore muito resistente e com tronco curto até onde os galhos começavam, mas para cima um entrelaçamento de galhos e folhas formava um labirinto. Foi ali que Alice ficou e espiou tudo o que aconteceu nos minutos seguintes. Subiu na árvore sem nenhuma dificuldade. Os degraus eram perfeitos e o tronco curto logo a fez chegar na parte mais interessante. É que ali, entre uma folha e outra, a grossura dos galhos formava pequenas plataformas onde era possível ficar confortavelmente. Amou tanto o esconderijo que até esqueceu o medo. Ela não sabia ao certo o que faziam ali, então se ajeitou entre os galhos e procurou uma fresta para espiar a estrada.   

Imagem: Google

O relógio marcava 14 horas quando o grupo de caçadores saiu de casa. Armados e com comida partiram para a mata. Andaram muito e Alice cansou. Estavam no ponto estratégico quando, de repente, um dos caçadores viu a tropa de longe. Eles estavam se aproximando. O aviso fez com que o grupo rapidamente procurasse um lugar para se abrigar, foi quando Alice, na tentativa de se esconder, descobriu a árvore. Precisava ficar quietinha entre as folhas para que ninguém a visse. Estrategicamente os caçadores se posicionaram em lugares seguros para ficar de olho na tropa inimiga que por ali passaria. O lugar em que estavam tinha uma estrada de terra e pedras. A árvore que Alice se escondera ficava ao lado da estrada, bem na entrada da mata. Eles estavam cercados por pedaços de floresta e campos de grama verde. Alice não sabia ao certo o que eles caçavam.

Alice e sua família moravam naquela redondeza. Sempre que recebiam a notícia de que caçadores inimigos viriam para a região, seu pai e os amigos dele preparavam as armas e adentravam a mata. Ela sabia que eles eram caçadores, mas eles não voltavam para casa com animais ou qualquer objeto, então eram caçadores de quê?

Desta vez, Alice quis ir junto. Era a primeira vez que iria para a mata com os caçadores.

No esconderijo, o coração batia tão forte que ela teve medo que alguém ouvisse. Não demorou e a tropa chegou. Deviam estar em uns 10 homens. Eles pararam exatamente na entrada da mata, perto da árvore. Da sua árvore. Alice sentiu o rosto arder. Procurou manter a calma e respirou fundo. O grupo se espalhou e cada um dos homens ficou parado em um canto. Eles olhavam em direção da mata. De repente, disparam tiros, mas nada aconteceu. Alice não viu nenhum animal. Passou meia hora e nada mais aconteceu. O grupo se reuniu novamente e partiu. Um tempo depois, o grupo do pai de Alice saiu de onde estava e sentou no gramado. Ela desceu da árvore e correu. Tomada pela adrenalina, nem olhou para trás para se despedir da árvore.

Sentados no gramado, os caçadores tiraram as comidas da bolsa e lancharam. O sol já se pôs e a noite começava a cair. Alice queria ir para casa pensar em tudo aquilo, mas eles iriam demorar. Não sabia ao certo se eram caçadores do bem ou do mal e nem o que caçavam. Falou para o pai que queria ir para casa e iria sozinha. Foi quando seu pai pegou uma pedra achatada, tirou o facão da cintura e cortou as laterais da pedra. Fez um quadradinho com a pedra e levou-a até os lábios. Num movimento rápido, soltou um assobio. Alice ficou encantada. O pai esticou a mão e entregou-lhe a pedra. “Leve isto, se sentir que está em perigo, assobie que iremos até você”. Ela tentou uma, duas e três vezes, mas o som não saiu. Devolveu a pedra para o pai que pacientemente a ensinou novamente. Quando finalmente conseguiu, se virou para a estrada e ao erguer os olhos, viu lá longe, no meio das árvores, o telhado de casa. Deu alguns passos e sentiu uma onda de medo percorrer seu corpo. E se encontrasse algum caçador no caminho? Virou para trás e perguntou se alguém queria voltar para casa com ela. Dois deles disseram que iam. Alice deu mais dois passos e...acordou.


Ficou deitada com os olhos abertos na escuridão do quarto. Relembrou os detalhes do sonho. E pensou, será que eram caçadores do bem ou do mal? Por que sonhou aquilo tudo? Fechou os olhos e sentiu-se protegida pelas folhas, pelos galhos, pela árvore, pela natureza, pelo assobio e pelo pai. 

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