Ah! Essa saudade...

Quando a chuva cai, desce junto uma saudade gigante de casa. Saudade de ser criança e correr sem chinelo. Pisar no barro. De descer por aqueles rios de água que escorriam pelos morros e sumiam assim que o sol aparecia. Saudade do barulho da cachoeira e das incansáveis vezes que desci por ela com as bóias de pneu de caminhão do pai. Saudade do silêncio da noite. De sentar no cantinho, tão disputado do fogão à lenha, ficar lendo e deixar o fogo morrer. E nem sempre sobravam brasas. Saudade de procurar pedrinhas brilhantes no potreiro. Saudade até de ir para aula com geada e deslizar no gramado. Saudade de jogar futebol, lá em casa, naquele gramado cheio de rosetas, até a escuridão não deixar mais ver a bola. Saudade de catar ovo de pomba, bater eles, colocar numa mamadeira, pegar os cachorros no colo e tratá-los como bebês. Saudade de correr atrás das galinhas e tentar fazer com que os gatos fizessem o que eu queria. Carregar cachorro no colo, mas não de pegar pulgas. Saudade de dar besouros para os sapos e esperar o meio dia pra ver os lagartos no sol. Saudade até de levar bronca da mãe e do olhar do pai que fazia a gente tremer sem pronunciar uma palavra sequer. Saudade de passear com o nono, mesmo que fosse para visitar pessoas da idade dele e ouvir conversa chata de adultos, sem crianças para brincar. Eu ia só para ganhar balas, porque nessas casas de avós sempre tem. Saudade de dormir com a nona quando o nono viajava. Saudade das férias com a casa cheia. Cobertas e colchões pela casa. Fila para tomar banho e rodízio de gente para jantar.  Saudade de quando a mãe apagava a luz do quarto e de chamar ela no meio da noite só pra pedir alguma coisa para tomar. Saudade de ficar perto do fogão com o pai enquanto ele tomava chimarrão. Saudade de disputar o sofá com meu irmão e chorar pelos socos que ele me dava. Saudade de travar guerrinhas com a minha irmã. Essa dor de briguinhas de irmãos passava rápido, tão rápido como o tempo que escorreu pelos dedos e num piscar de olhos nos jogou para a vida adulta, vida essa que a gente sai de casa, voa em busca dos sonhos e sente saudade para sempre. Dias mais, dias menos, mas sempre. Desce chuva, desce e leva essa saudade para bem longe, só hoje, porque eu sei que outro dia ela volta.

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