Feliz Ano Novo: te peguei

A porta da rua de casa ficava bem ao lado da pia e era ali que eu sentava, em cima do tapete, em frente à primeira portinha da pia, mas era pela janela que eu cuidava quando a sombra dele ia passar. E era assim em todas as manhãs de ano novo.

Imagem Google

A casa do nono e da nona fica no andar de cima e não tem escada dentro de casa de um andar para o outro. Somente ao lado de fora. Nessas manhãs de ano novo, quando eu sentava no tapete e cuidava a janela, era o nono que eu esperava passar. Era a tradição que ele tinha e nos passou que enchia nosso coração de felicidade e, hoje, nos dá tanta saudade.

Quando a porta abria e ele adentrava nossa casa, eu levantava rapidamente do tapete e dizia: Feliz Ano Novo, te peguei. Te peguei é o mesmo que falei primeiro – e era a graça, a festa e a felicidade. Falar Feliz Ano Novo primeiro que o outro era sinônimo de dinheirinho. Isso mesmo. Quem perdia a brincadeira tinha que pagar qualquer valor para quem ganhava. Era assim comigo, meus irmãos, meu vizinho, meus primos. Todos que passavam o Ano Novo na nossa casa entravam na brincadeira. Foi assim durante toda a infância e adolescência, até meus 16 anos quando ele virou estrelinha.

Mas, só agora perguntei à nona se a brincadeira foi inventada pelo nono e ela contou que a tradição é antiga e que quando eram crianças e moravam no Rio Grande do Sul, as famílias faziam bolachas e eles saiam na casa dos vizinhos para entregá-las e falavam Feliz Ano Novo. Em troca ganhavam moedas.


Nossos primeiros de janeiro agora são de saudade. Daquela sensação e felicidade de poder dizer: te peguei. Passamos a tradição às novas crianças da casa e, enquanto isso sentimos felicidade deles – que era (e é) a nossa. 

Comentários