A dor e o exemplo dos últimos dias

Dor. A palavra que resume os últimos dias. Perdi o sono. Acordei com o coração apertado. Com dúvidas, perguntas. Meu corpo vagou pelo espaço, como se não fosse nada, porque realmente, não somos nada diante dessa inexplicável vida. Senti um vazio assustador. Uma estranha sensação, de dor com uma dor que não era a minha, mas dos outros. Era para ser a dor da Chape, mas uma dor que inevitavelmente se tornou nossa e me fez sentir um fio de esperança na humanidade.

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Uma cidade. Um Estado. Um país. Vários países. O mundo todo triste, inconformado, chocado, anestesiado diante de uma história de sucesso que irradiava carinho e exemplo e conquistava, a cada dia, mais seguidores e admiradores. Um sentimento de dor mútuo, onde durante alguns dias fomos todos, um só. Unidos pela mesma causa – como tudo deveria ser. E nesse emaranhado de sentimentos, de incompreensão, me pergunto: Será que um dia seremos capazes de nos unir assim, como forma de apoio, consolo e de estender a mão para o próximo diante das tragédias do nosso cotidiano?

Os últimos dias de novembro de 2016 têm muito a nos ensinar.

Depois da quebra de fronteiras com a chegada da internet, o mundo está dentro nós. Nos aproximamos mesmo a gigantescas distâncias. Nosso sentimento pela Chapecoense, como pode? Muitos de nós nem ao menos os conhecia, mas são parte nossa, do nosso cotidiano, da nossa casa, do nosso coração. São uma história que retratam a nossa história. Impossível não compararmos o acontecido com a nossa própria. Somos todos vida e seremos todos morte, sem saber o dia de amanhã. Sonhamos hoje e buscamos nossos sonhos com a certeza de que podemos não realizá-los. E esse sentimento de que a vida escorre pelos dedos é que precisa nos fazer mudar, nos tornar mais humanos. Parar de se importar com coisas mesquinhas e dar valor às pessoas, aos momentos. Fazer boas ações e espalhar amor.

 Os últimos dias de novembro de 2016 têm muito a nos ensinar.


A Colômbia mostrou que não há fronteiras para a humanidade. Que precisamos ser um só, mesmo que unidos pela dor, porque juntos, um acalenta e dá força para o outro. Que é preciso se unir pelas tragédias do dia-a-dia e não separar. Que exemplo. Que tapa na cara de muitos de nós. Um povo submetido a uma história de sangue e de dor. Uma cidade que viveu (vive) em meio ao cartel e que tenta esquecer os episódios da época do narcotraficante Pablo Escobar. Uma cidade que não tinha o mesmo o sentimento que nós pela Chape e que tomou a nossa dor como a deles. Que lotou o estádio e as ruas (52 mil pessoas) mesmo quando poderia ficar em casa. Que se vestiu de branco e acendeu uma vela. Que gritou “Vamo, vamo Chape” e emocionou o mundo. Que sirva de exemplo. Que a humanidade reflita e consiga ser mais solidária, mais compreensível com a dor do outro e que saiba estender a mão como um gesto de conforto e de amor ao próximo.

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