A arte que dá vida aos troncos

O cheiro de madeira no ar, cedro e nó de pinho, serragem pelo chão, pela roupa, ferramentas de todos os tamanhos, tintas e cera de abelha. É desse cenário que saem grandes obras de arte. De uma pequena colônia austríaca em Santa Catarina para o mundo.
Herdeiros de uma tradição, os artistas desenvolvem estilo próprio e uma inspiração invejável. Eles têm muito em comum. Observadores e detalhistas, dedicam a vida a esculpir madeira. Cada detalhe talhado é uma letra a compor a história dos escultores. Histórias de família e de aprendizado. Histórias de ontem, tão reais e vivas quanto as de hoje, só que com outros personagens.

Uma arte que veio de longe, de navio, para sobreviver à crise. Espremida na bagagem de imigrantes austríacos. Herança de famílias que deixaram um país assolado pela guerra e desembarcaram em Treze Tílias (SC). Foram eles que atravessaram o oceano com a ideia de entalhar madeira, de dar vida aos troncos mortos e ensinar a arte aos filhos, netos e bisnetos. É desta carga de cultura que a cidade se tornou “o berço da escultura catarinense” e tem hoje, mais de vinte escultores profissionais.
As nevascas nos invernos rigorosos da Áustria impediam os camponeses de realizar suas atividades. Trancados em casa, eles preenchiam as horas geladas do dia com um passatempo: esculpir madeira. Mas, fazer obras de arte com pedaços de árvore não era só uma distração de inverno. Quando o sol do verão derretia a neve, os pastores conduziam os animais até as pastagens no alto das montanhas. Enquanto o rebanho saciava a fome, os camponeses já sabiam que tinham tempo livre para o seu hobby. O que eles não sabiam é que aquele entretenimento, anos mais tarde, a quilômetros de distância, seria uma atividade levada a sério, como profissão e que as obras em madeira correriam o mundo.
Os primeiros imigrantes escultores que chegaram a Treze Tílias e ensinaram a arte de esculpir madeira foram Georg Thaler, irmão do fundador da cidade; Josef Moser e Andrä Thaler, filho de Andreas. Andrä que aprendeu com seu avô, ensinou seus três filhos, entre eles Gotfredo Thaler (in memorian), e um dos netos, Werner. Já Bernardo, Conrado e Rudi Moser são os sobrinhos a quem Josef Moser passou a técnica. Ele era escultor formado pela Academia de Belas Artes de Munique, na Alemanha. Esses artistas fizeram nascer dentro de suas famílias, uma escola de escultores, onde um ensina o outro. Os ensinamentos começam desde cedo, alguns na infância, outros na adolescência. Cada aprendiz cria seu próprio estilo e aos poucos, descobre o talento que corre pelas veias.
Em Treze Tílias, é possível ver que a escultura não faz parte só do ambiente em que vivem os artistas, mas também das casas da maioria dos moradores, seja na madeira das portas, num quadro da santa ceia ou em uma imagem da face de Cristo no nó de pinho. Assim como os austríacos da época da imigração, os descendentes também são fortes seguidores da religião católica.
A escultura de uma cruz e a imagem de Cristo pregado, com sete metros de altura em uma das ruas da cidade, chama atenção. A casa logo atrás da gigantesca obra é de Gotfredo Thaler, 70 anos (quando o texto foi escrito, em 2010, Gotfredo estava vivo). É ali que estão algumas das esculturas que faz; seu ateliê e o de suas filhas Ingrid e Ellen. Gotfredo fez faculdade de Belas-Artes em Brasília e depois, em busca de aperfeiçoamento, partiu para Áustria, onde teve contato com grandes escultores. Confiante, com novas técnicas e cheio de experiências, voltou ao Brasil para dedicar-se à escultura sacra e ficou conhecido por suas obras gigantescas. É necessário subir em andaimes para esculpir. Seus trabalhos podem ser encontrados em todo Brasil. Algumas das obras estão no Vaticano, na Áustria, na Igreja Dom Bosco de Brasília – DF e na Catedral de Joaçaba – SC.
Foto: Arquivo Treze Tílias

Mulheres de madeira

Ela começou aos onze anos e desenvolveu uma arte diferente. Esculpe mulheres finas e altas com vestidos longos. Este é o estilo da escultora Ingrid Thaler, 34 anos. Formada em Artes Plásticas, pela Universidade Federal de Santa Catarina, ela frequentou a Escola Profissional para Escultores em Madeira em St. Jakob – Ahrntal – Südtirol, na Itália. Recebe encomendas de todos os cantos do país e esculpe o que o público solicita. Amplia e imprime o modelo a ser entalhado. A madeira que a escultora utiliza é o cedro. Ingrid explica que para a obra não correr riscos de rachar depois de pronta, o tronco precisa ser cortado no inverno, ou como eles costumam falar, nos meses que não possuem a letra R - maio, junho, julho e agosto. Paraná, Mato Grosso e algumas cidades de Santa Catarina são os fornecedores da matéria prima para as obras. Quando o trabalho de Ingrid é descoberto e o público se interessa em aprender, ela vira professora e ensina os admiradores. Disponibiliza todo o material, a madeira e os formões já que são difíceis de encontrar e custam muito.

Foto: Arquivo pessoal de Ingrid Thaler

Em outro canto da cidade, provinda do mesmo lugar, a história se repete, mas com outros personagens. Rudi Moser e Christian. Ferramentas em mãos, um modelo em papel fixo na parede e um pedaço de madeira, eis o desafio para pai e filho. Os especialistas em nó de pinho dividem o mesmo ateliê. Rudi teve grande influência de sua mãe Maria Thaler Moser. Os trabalhos são variados, pois atende encomendas, tanto no estilo barroco quanto moderno, mas o que ele sabe mesmo esculpir é a Santa Ceia e relevos em portas. Christian não gostava de esculturas, mas foi influenciado pelo pai. Começou aos dez anos e agora com 23, vive da arte. Para aperfeiçoar a técnica, foi trabalhar na Áustria. Christian conta que os austríacos valorizam o trabalho manual, já que a onda da tecnologia atingiu até as esculturas. As obras feitas em máquinas são as mais encontradas no mercado austríaco, por isso a admiração de quem ainda transforma a madeira em obras de arte, com as próprias mãos. 

Comentários

  1. As mulheres que Ingrid cria são tão deslumbrantes! E Ingrid é tão friendly!! É adorável ir ao ateliê e conversar com essa exímia escultora!

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