Retalhos dos meus 28

Antes que esta idade termine, preciso dizer algumas coisas. Porque foi nela que lidei com grande parte dos meus monstros – e vale lembrar que não derrotei todos, a luta continua. Até mesmo quando, e se, eu beirar 90 anos, com todos os esquecimentos possíveis, lembrarei dessa idade. Pelo menos acho que até lá vou vencer o monstro do cabelo branco que também marcou presença nesses 28.


A idade, para muitos nada significa, afinal, ano após ano a maioria das vidas continuam iguais e, há quem passe a vida toda na fossa porque não consegue lutar contra o monstro do comodismo e o monstro da mudança. Sim, é fácil, simples e lindo escrever, eu sei. O que não é fácil é essa luta. O que não é fácil é lidar com a ideia de deixar tudo o que conquistamos, em anos suados, para trás. Então, deve ser como morrer, né? Algo como: matar a vida que se teve até o momento e amanhã acordar em uma vida totalmente diferente, estranha, incerta e cercada de outros monstros. Pode soar esquisito, pode parecer triste, dolorido, mas muitas vezes é necessário.

Outubro e novembro, os dois primeiros meses com 28 anos. Neles, comecei a sentir uma necessidade esquisita e anormal de mudança. Eu não queria mais nada daquilo que eu tinha e havia conquistado até ali.

Mas, como assim?

O apartamento que eu morava, arrumado, limpo, com as minhas cores preferidas, do meu jeito, com as minhas coisas. Meu guarda-roupa cheio, com tudo o que imaginasse nele. Roupas e saltos de todas as cores e modelos, infinitos pares de meia e pijamas, um para cada dia da semana. O meu emprego de quatro anos que eu amava tanto, que eu acordava empolgada para ir, que eu me sentia tão bem, e as pessoas do trabalho que eu gostava tanto de encontrar todo dia – e o meu salário. O meu carro que eu podia viajar ou simplesmente sair para dar uma volta na BR. A minha biz que eu voava pelas avenidas e arrancava antes que os carros na sinaleira com aquele vento sensacional na cara. E os meus amigos. Todos os bares, as conversas, as noites de diversão com música e as jantas. E a minha família. Minha irmã e minha sobrinha que eu visitava de manhã e à noite todos os dias. E meus pais que eu viajava de carro, sozinha, com som alto por 500km, para visitar uma vez ao mês.

Era tudo perfeito, ótimo, vida linda e que eu amava, mas da noite para o dia parece que nada mais fazia sentido. Sem meus livros e sem minha casa, sem minha família, sem meus amigos. E meu guarda roupa? Não, impossível. Não daria para viver sem tantas coisas, mas eu também não tinha nenhuma garantia de poder viver a vida toda com elas. A própria vida não é uma garantia. E se, de repente, a empresa me mandasse embora para reduzir o quadro de funcionários e eu não pudesse mais comprar meus livros, andar com o meu carro e comprar roupas e saltos? Meu Deus, o que eu ia fazer? E se todos os meus amigos casassem ou fossem morar em outra cidade? E se eu precisasse dormir em outra cama que não a minha que eu amava e era refém?

Foi aí que eu comecei a me imaginar sem tudo isso. Como eu lidaria se precisasse viver com menos? Longe de todos e num futuro incerto – porque ele é incerto sempre, nós é que temos mania de nos cercar de coisas que nos dão a sensação de segurança, de garantia que amanhã teremos tudo o que temos hoje. Era disso que eu precisava fugir. Eram essas coisas que eu precisava deixar para trás. Surgiu então a vontade, o desejo de coisas novas que preenchessem o coração, os olhos, que despertassem novas sensações. Mesmo que fosse preciso renunciar tudo, passar por perrengues e preocupações. Seriam perrengues e preocupações novas.

Decidi comprar uma passagem para um lugar que amo. Sem data de volta. Sem muitos planejamentos, mas com o intuito de me tornar um ser melhor, de lutar contra meus monstros, o da mudança, do medo e do comodismo principalmente, porque eles barram tantas coisas boas na vida da gente.

Abri meu guarda roupa e doei toda aquela parafernália. Abri o apartamento. Fechei uma mala com o básico. Abri o coração e coloquei meus sonhos, meus valores, as lembranças e o sentimento por cada pessoa que ficaria para trás. Mergulhei no escuro e, seis meses depois, ainda não sai dele. Nessa transição, já aconteceu muita coisa, ganhei presentes e recompensas incríveis, e perdi tantas outras. Ainda não consegui analisar tudo. É uma questão de tempo, de digerir os sentimentos e acontecimentos. Talvez ao decorrer dos 29 eu já consiga contar os prós e os contra da nova vida, mas já adianto que é incrível não sentir falta de todas as coisas que eu era refém, exceto das pessoas, claro.    

A lição desses 28 que lembrarei para sempre, foi ter conseguido criar coragem e força para mudar, recomeçar do zero e perceber que o que realmente importa é o aprendizado do caminho, a luta contra os monstros e a maneira como lidamos com o novo. 

O bom disso tudo é saber que dá para recomeçar sempre, independente dos resultados “externos” e visíveis aos olhos, porque o que realmente importa fica no coração. 

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