Notas sobre o amor

Ela deitou e jogou os braços para trás do travesseiro. Era sábado. Chovia. Não quis sair com os amigos. Comeu as últimas bolachas do pacote e tomou leite com chocolate. Estava satisfeita. Não, não estava. Não queria ler, nem música e nem TV. Precisava ficar no meio do nada. Sem ninguém. Em silêncio. Queria refletir sobre o amor. Sobre as últimas pessoas que se relacionou. Foi aí que se perguntou: “Será mesmo que esse tal amor existe?”.

Estava descrente.




Com os olhos fixos no teto e o pensamento bagunçado, tentou achar um ponto, um fio, uma linha que a levasse a entender por que não conseguia amar nenhum homem. Sabia que o amor existia. Amava o pai, a mãe e os irmãos, mas era de outro amar que falava, que se perguntava – e duvidava. Era de um amor diferente que precisava. Mas qual? Afinal, nunca tinha amado, nem visto e nem tocado no amor, então como podia desejar algo que nem se quer sabia ao certo o que era e se realmente existia.

E como encontrar esse tão falado amor? Que ora o mundo diz existir, ora não. Tentava ser amável, divertida e tratar bem os caras que conhecia, mas então por quê? Por que tinha que passar o sábado sozinha e com chuva? Enquanto poderia estar assistindo a um filme ou mesmo jogando conversa fora e roçando o pé – sempre gelado - no dele. Olhou para fora pela pequena fresta da janela e parou o olhar na luz do poste, na fina garoa que caia. Era fácil achar um pé que topasse ficar ali roçando com o seu. Aliás, isso era a coisa mais fácil que existia. Eles estavam sempre prontos, dispostos. Era só mandar uma mensagem. Era justamente disso que queria se livrar. Queria distância de pessoas que não querem e não se sujeitam amar.

Já havia conhecido muitos caras. De todos os tipos e para todos os gostos. Todos, menos o dela. Acreditava que as pessoas ficavam juntas porque rolava algo mágico no ar. Um pó de pirlimpimpim ou uma substancia mágica na ponta da flecha do cupido. Era isso. Só podia ser isso. E com bilhões de habitantes na Terra, o Cupido tinha esquecido dela. É natural, ele não poderia lembrar de todo mundo. Não, não podia ser. Justo ela? Por que não outra pessoa? Justo ela que tem os valores que as pessoas tanto procuram e querem – mas não seguem. Era fiel. Não concordava com essa coisa de traição. Talvez por isso estivesse sozinha. Era sincera. Gostava dos pingos nos is e de conversar sobre tudo, inclusive os problemas nos relacionamentos. 

Passou os dedos por entre os cabelos. Claro, como não tinha pensado nisso antes? O problema morava no cabelo. Eles não gostam do cabelo dela. Quase ninguém no mundo gosta de cabelos cacheados, mas todos os meninos que ela conhecia diziam a mesma coisa. Que adoram. Que é lindo. Que é um charme. “Bando de mentirosos. Se não é meu cabelo, por que é que não me querem? Péra. Pensando bem, o problema é comigo. Eu que não quero eles.”

Marcava encontros e se arrumava, cheia de ânimo, feliz, disposta a fazer valer a pena. Na mesa do bar, a conversa sempre fluía, adorava conversar. Levava sorte. Só conhecia pessoas queridas, encantadoras. Daquelas que dá vontade de guardar no bolso e pegar toda vez que quiser dividir algo ou só para companhia. Mas isso ela tinha de sobra. Colecionava pessoas assim. Então, ficava ali, por horas e horas. Bebiam um suco, uma caipirinha, uma cerveja – embora não gostasse, acompanhava - e nada da fada com o pó de pirlimpimpim. Nada do Cupido. De novo e mais uma vez. Não era amor. Não era para amar.

Estava cansada de tentar. Nunca tinha se apaixonado. Não sabia o que era aquela coisa de perder a cabeça, de sentir saudade, de admirar e amar que as pessoas tanto falavam, e por isso, muitas vezes, não acreditava. O vento bateu na cortina e trouxe alguns pingos de água, virou para o lado e adormeceu.   

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