Meninas molecas: sim, nós jogamos futebol

O ano de 1994 vai ficar para sempre na minha memória. Meu primeiro ano escolar, Ayrton Senna, a moeda real e o mundo. 94 foi o ano em que eu comecei a entender o mundo, mas o fato que mais marcou foi deitar no sofá para assistir a Copa do Mundo e fazer uma pergunta atrás da outra sobre as regras e o porquê disso, porquê daquilo. Comecei a ser motivada pela Seleção em campo e saía da escola num vento para assistir os jogos. Logo, escolhi o time do meu irmão para torcer. O quarto dele era forrado de azul. É, gremistas de saber a data de nascimento dos jogadores. E depois, a data de nascimento, o hobby e o apelido de cada jogador da Copa do Mundo de 98 através de uma revista, e claro, álbum de figurinhas e boné, camisa e tudo o que desse direito.

Enquanto não tinha futebol na TV, minha mãe berrava da janela: “Pra dentro piazada, tá escuro”. Olhos biônicos para enxergar a bola na escuridão do gramado de casa e pés de cascão porque (juro, não entendo como aguentávamos) era um campo minado de roseta (planta de espinhos) que a gente passava mais tempo tirando espinho do que jogando futebol. Eu, meu irmão, minha prima, meu vizinho e quatro pares de pés encardidos que só escova e sabão para limpar.

Na escola, antes da aula começar, meninas e meninos jogavam futebol, juntos. De igual para igual. No recreio, meninas e meninos jogavam futebol, juntos. De igual para igual. Na educação e nas festas, nossa quadra, nosso time de meninas e meninos e nosso futebol, nossa diversão e nossa paixão. E agora eu tô me perguntando: quem foi que separou isso?

Cresci em cidade pequena (leia-se 5 mil habitantes) cercada por cidades pequenas. Tempos que celular, videogame e computador não faziam parte da nossa realidade. O esporte, o futebol principalmente, era muito falado, incentivado e praticado. Todo mundo gostava de futebol, e jogava.

Entrei para o time da cidade e disputamos campeonatos municipais, regionais e estaduais. Conhecemos lugares, delegações e sentimentos de vitória e derrotas. Foi nessa época que, pela primeira vez, nossa técnica contou que o presidente da Federação de Futebol não gostava de futebol feminino e por isso perdemos algumas oportunidades. A vida no futebol não era apaixonante e em contrapartida desvalorizada, restrita. Aos poucos, seguimos nossas vidas.

Mais tarde, por hobby voltei a jogar e percebi o retrocesso da sociedade diante do futebol feminino (ou antes eu não percebia?). Pequenas coisas como quando fui comprar uma chuteira “que número ele usa?” e as milhões de reações de susto e estranheza quando eu dizia “eu jogo futebol”.


Cadê os meninos da escola? Cadê aquele nosso time, meninos e meninas unidos pela mesma paixão? Não, não me diz que eles cresceram e estão assustados porque jogamos futebol. Ei, o que aconteceu? Nós somos as molecas que chutavam e driblavam junto com vocês no recreio da escola.  

                                              Imagem: universo.edu.br

Comentários