Um Brasil isolado do Brasil

Que existem muitos países dentro de um único país chamado Brasil não é novidade. Cada região com costumes, músicas, sotaque, culinária e modo de viver próprio. É tanta diversidade que é possível vivenciar culturas de municípios vizinhos como se tivesse atravessado mais que uma fronteira. Existem Brasis fáceis e Brasis difíceis. Brasis de dor e de alegria. Os de perto e os distantes, mas o Brasil apresentado a seguir chega a ser inusitado porque de tão brasileiro já não parece mais Brasil.

São Gabriel da Cachoeira é um município do interior do Amazonas. Localizado no noroeste do Estado, seu território é o terceiro maior do Brasil, com 109.181,240 quilômetros quadrados*. Fica a 852 quilômetros de distância da capital amazonense e é conhecida como “Cabeça de Cachorro” pela forma que o mapa do território apresenta.

                                                            Imagem: Google Maps

Por aqui existem índios pelas ruas e florestas. Índios civilizados. Com roupas, mas também com pinturas pelo corpo. Tem costumes e características de um Brasil de 1500 e de um Brasil de 2016. O passado e o presente se encontram neste lugar de rio, floresta e praias. A natureza dá show numa paisagem de encher os olhos e encantar qualquer um. A Bela Adormecida é o principal cartão postal da cidade. É que o conjunto de serras forma a imagem de uma mulher deitada.  

                                                                 Foto: Keila Zanatto

Ponto estratégico do Brasil, a cidade tríplice fronteira faz divisa com a Colômbia e a Venezuela. E para vigiar, muitas sedes militares, entre elas, a 2ª Brigada de Infantaria de Selva, o 5º Batalhão de Infantaria e Selva, o 7º Comando Aéreo, a Marinha do Brasil e a Polícia Federal. Mas, ao conhecer uma pequena parcela da extensão de água e floresta é possível ver que não tem como vigiar tamanha imensidão por inteira.   

Com 85% da população indígena, São Gabriel tem 22 etnias com 43.094 habitantes* espalhados ao longo dos rios. São mais de 400 comunidades. Muitas ainda vivem em locais de difícil acesso, onde não é possível chegar pelo rio, somente pelo ar.

A economia do município baseia-se na agricultura de subsistência: mandioca, banana, açaí, uma vez que não é possível fazer grandes plantios, devido às áreas de preservação, portanto, tudo vem de longe - e de barco. Nos meses de janeiro à março – época de seca do rio, a cidade mais indígena do Brasil enfrenta problemas para receber alimentos. As pedras e bancos de areia que aparecem quando a água some dificultam o acesso dos barcos e lanchas até a cidade. Em janeiro de 2016, um quilo de tomate chegou a custar R$22. A moeda que circula pela cidade provém, em sua grande maioria, dos militares.

Ao passar pela calçada da avenida principal, é preciso desviar as caixas. Peixes recém pescados e galinhas com pena e bico, ainda vivas, são vendidas em frente ao mercado público. É nele que encontramos a produção local. Banana, açaí, tucumã, tapioca, farinha, artesanatos e quiampira – o tradicional prato da cidade preparado com peixe surubim, tucupi (extrato ácido retirado da mandioca) e pimenta, mas muita pimenta. A sensação é de que todas as pimentas existentes no mundo foram colocadas neste prato.

São Gabriel possui pontos de internet via wi-fi nos estabelecimentos e casas, mas a velocidade é diferente da encontrada em cidades “normais” do Brasil. A TV, via satélite, perde o sinal em função do mal tempo.

Todos os dias São Gabriel enfrenta problemas com o fornecimento de luz. A iluminação vai embora por quinze, trinta ou até mesmo uma hora. O problema ocorre porque os geradores são antigos. Mas, a falta de energia não é o único motivo que ocasiona dor de cabeça aos moradores. É que a empresa responsável pelo fornecimento de energia elétrica da cidade, fica bem no centro da cidade e para quem mora ao redor, o barulho ensurdecedor dos geradores é motivo de incomodo dia e noite. Há quem não ouça mais. O chiado já virou música aos ouvidos de quem vive por ali. A localização é estratégica, uma vez que as quedas podem ser mais freqüentes, caso a sede fique distante da cidade.  

Há um aeroporto em São Gabriel com vôos semanais, mas somente uma empresa oferece o serviço, o que acaba encarecendo o valor da passagem.

Descrever São Gabriel da Cachoeira é fácil porque tudo aqui é diferente, mas acredito que nenhum historiador, escritor ou qualquer reportagem, seja impressa ou televisiva vai retratar o Brasil que se esconde aqui. É preciso estar para entender, para sentir e é preciso tempo. Tempo para absorver e tempo para digerir tanta coisa. As sensações, os espantos e admirações só são compreendidos quando se está aqui – ou nem assim.
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*Segundo dados do IBGE 2015

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