Medo de jornalistas: calma, é só uma conversa

Quando ela abriu a porta, arrumou o cabelo e foi logo dizendo: “Minha casa ta uma bagunça”. Na cozinha, “tocou” os cinco netos e puxou as cadeiras. Serviu bolo e refrigerante. Depois de três horas, o sobrinho disse: “Titia estava com medo de falar com você, por isso não avisei que você viria”.

Perdi as contas de quantas pessoas entrevistei nos últimos meses. A maioria, pessoas com mais de 40 anos. Algumas delas me confessariam a vida pessoal e cenas um tanto quanto tristes, delicadas e perigosas. Frente a frente, entre o falar e o ouvir, uma imensidão de coisas acontece. Durante as pausas dos depoimentos tento digerir a sensação. Experimento o medo e a dor de cada uma. No desenrolar do enredo, ora engraçado, ora triste, emanam todos os tipos de sentimento ao reviverem as lembranças e, para quem recebe, um desafio, um malabarismo com os pertences do outro.

Mas, conversar com jornalista ainda assusta muitos. No inicio, a insegurança, a falta de confiança e por dentro, os personagens se perguntam “conto ou não conto?”, “o que eu posso contar?”, “o que vão fazer com a minha história?”.

E o direito de não conseguir dividir a própria história, de estar ao lado de um estranho para abrir o coração. Para essas horas, o silêncio é necessário. É preciso deixar fluir, descontrair e até mesmo, conversar outra hora. As histórias das pessoas são únicas e pertencem somente a elas. Cabe a cada um dividi-las – por livre e espontânea vontade.

Foi só depois de sair da casa de Dona Francisca, 70 anos, que o sobrinho contou que ela estava em pânico. Era só uma conversa e ela entendeu, por isso conseguiu dividir a história.

Nessas horas lembro da minha nona. Tinham ido na casa dela para filmar e perguntar sobre como ela e meu nono construíram a vida juntos. E achei uma graça quando ela disse: “Fiz um fiasco porque ao invés de falar que a gente criava suínos, falei porcos”.

                                                                      Imagem Google

Coisa mais fofa desse mundo esses personagens.


Por essas e outras troquei o “Oi, eu sou jornalista, gostaria de entrevistá-lo”, por “Oi, eu gostaria de ouvir histórias, tens alguma para me contar?”.

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