Diário de bordo: Encalhados em alto Rio Negro

É exatamente 21:27 e o motor do barco desacelerou. Um silêncio que pôs todos em alerta. Abri a cortina e o barco está próximo à encosta. Logo à frente, pela janela, a luz iluminou uma árvore. A porta da cabine se abriu e lá na claridade alguém jogou a corda e ancorou o expresso. Está chovendo.


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Santa Isabel do Rio Negro é um município do Noroeste do Amazonas. Fica a 850km de Manaus. Seu território faz fronteira com a República da Venezuela e o único meio de transporte é barco. São aproximadamente 24 horas e é para lá que eu vou.

Estou no Porto São Raimundo. É daqui que saem os barcos para o interior do Amazonas. O expresso Diamantina sairá às 8 horas da manhã com destino às cidades de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira. 

É preciso comprar passagem com antecedência, pois não é vendida na hora do embarque. Até Santa Isabel o valor é R$400,00. Só é permitido levar 20kg na bagagem. A taxa contada em caso de excesso é de R$5,00. Já estão pesando as malas para partirmos. 

Sento até que organizam e, ao meu lado, uma moça chamada Lanuzia. Ela é enfermeira e passa meses nas comunidades indígenas dando assistência. Vai para Santa Isabel também. 

-Não gosto de ir com esse Expresso porque ele sempre estraga. 

-Como assim? Estraga e fica parado no meio do rio?

-Sim. Até chegar reforço. 

A fila está formada. Entramos e o interior do barco é semelhante ao de um ônibus, mas as poltronas não são inclináveis e os bancos são de três em três totalizando cem. O Expresso tem seis TV's tela plana espalhadas ao longo dos bancos e outras duas menores ficam na parte frontal da lancha. Minha poltrona é a J72. Elas são identificadas por J (janela), M (meio) e C (corredor). 

São 9 horas e estamos saindo de Manaus com atraso de uma hora. O motor do barco faz tanto barulho que para conversar tem que gritar. Assim que nos acomodamos e o barco sai, um dos funcionários passa e entrega uma caixinha transparente, contendo: um sanduíche de queijo e mortadela, um cup cake e um docinho de leite ninho com açúcar cristal cor de rosa. Em seguida serve um copo de Baré* (alô Gol, Tam e Avianca). 

Tem uma senhora sentada comigo. Ela é missionária. Veio de São Paulo e está há dois anos trabalhando com as comunidades ribeirinhas do município de Barcelos. Assisto um filme e pego no sono quando, de repente, alguém pega no meu braço. 

-Hora do almoço.

É um dos funcionários. Ele chama banco por banco e cuida para dar tumulto na fila. O almoço é servido nos fundos do barco e tem uma pessoa só para entregar um prato é um pacote com o garfo e a faca para cada um dos passageiros. Na parede, um cartaz destinado às mulheres e ou homens com cabelos longos. É preciso fazer um coque conforme mostra o desenho. 

Frango, bife acebolado, arroz, maionese, vatapá*, macarrão, banana e água. O almoço do Diamantina é preparado no barco e servido as 11 horas da manhã. Um dos funcionários passa para recolher os pratos e outro entrega balas. 

Filmes legendados são exibidos o tempo todo e é permitido ficar na parte dianteira e traseira do barco. As 18:30 é servido o jantar. Todas as três refeições do dia já estão inclusas na passagem, mas quem quiser pode comprar refrigerante, salgadinhos, misto quente. 

A senhora que está sentada comigo vai desembarcar em Barcelos, mas ela já foi lá para frente em outro banco para que eu possa deitar. Estamos assistindo filme, de repente, olho e relógio para ver se já estamos em Barcelos.

É exatamente 21:27 e o motor do barco desacelerou. Um silêncio que pôs todos em alerta. Abri a cortina e o barco está próximo à encosta. Logo à frente, pela janela, a luz iluminou uma árvore. A porta da cabine se abriu e lá na claridade alguém jogou a corda e ancorou o expresso. Está chovendo.

No interior do barco, os funcionários rapidamente ligam as luzes e abrem a tampa do chão que ficam no corredor e dá acesso ao porão. Estão olhando o motor. O expresso precisa dois motores para conseguir subir o Rio Negro. Um deles estragou e fica perigoso seguir viagem, porque segundo o técnico do barco, os trechos de Barcelos até São Gabriel são perigosos para ir só com um motor. 

Dez minutos depois, em meio aquela escuridão, luzes surgem. É o Expresso Araçá. O mais rápido a trafegar no Rio Negro. Está fazendo o sentido inverso, ou seja, indo à Manaus. Estou no primeiro assento conversando com a Lanuzia sobre ela ter dito que sempre estraga. O Araçá encosta e os funcionários do Diamantina saem na chuva, conversam com o pessoal do outro expresso e retornam. Encharcados. E então, um deles fala:

-Pessoal, preciso a compreensão de todos. Quantas pessoas vão para Barcelos?

Quatro erguem a mão e fica definido que o barco vai subir até Barcelos para deixar esses passageiros. Até lá, quatro horas. Volto para o meu banco e deito. Acordo quando o expresso para e meu celular está com antena. Tento enviar mensagem para o Regis. Meu amigo de Santa Isabel que vai me esperar no porto, mas não consigo. Continuo meu sono. 

Abro os olhos e o motor do barco está mais silencioso que antes e na janela, uma claridade. Puxo a cortina e me deparo com uma parede com a escrita: Barcelos. É 04:00 da manhã e ficamos ancorados. Não voltamos à Manaus. 

Alguém encostou na minha perna e disse: 

-Hora do café. 

-Obrigada. Nós vamos ficar aqui?

-O Araçá vai vir de Manaus para levar vocês. 

-Que horas?

-Oito da noite. 

Vai ser um longo dia e um novo capítulo. 


*Baré é um refrigerante de guaraná típico do Norte. É fabricado pela Antártica e tem gosto mais doce que o guaraná vendido nas demais regiões do país. 

*Vatapá é um molho com pimenta tipicamente baiano, mas consumido nas refeições de toda a região Norte do Brasil.

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