Cotidiano dos amazonenses - Diário de bordo Parte III

Estou há 15 dias convivendo com as famílias de Santa Isabel do Rio Negro. Fui adotada pela Albertina, 40, e pela sua filha Luiza de 19 anos. Experiência indispensável para escrever e para o coração, para a vida. Já posso afirmar, sem outras convivências, que não há no Brasil povo mais receptivo e com tamanha bondade do que os amazonenses. É que a floresta, o rio, essa natureza são sinônimos de paz, de bem estar. 

Santa Isabel do Rio Negro é um município do Noroeste do Amazonas, localizado às margens do Rio Negro, a 780km de Manaus por via fluvial e a 630km via aérea. A população, segundo dados do IBGE de 2015, é de 22404 habitantes. Em seu território estão localizados os pontos mais altos do Brasil: o Pico da Neblina e o Pico 31 de Março.

A cidade, assim como tantas outras do interior do Amazonas, vive uma realidade diferente dos demais lugares do Brasil. Tudo por aqui é feito através de barcos, não existem estradas e a vida das pessoas gira em torno do Rio Negro. É ele que comanda tudo por aqui. Época de seca, a balsa e os barcos encalham dificultando o transporte e o sustento que vem de fora.


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Ao lado de fora das casas, uma placa com o seguinte letreiro: "Vende-se din-din". Não, ninguém por aqui vende dinheiro não. É um chamarisco para as crianças. Elas chegam com R$0,25 ou R$0,50, dependendo do preço estabelecido pela casa, e saem felizes da vida. Vão se refrescar. Vão saborear o delicioso din-din. Conhecido nas demais regiões do país como geladinho, sacolé ou chup-chup, os sachês são preparados com sucos de frutas do Amazonas, entre eles, cupuaçu e taperebá (cajá). 

Na casa da Dona Aracilda não tem placa de din-din, mas tem muitos netos. Pamela, Henrique, Thaila, Lorrany, Reine, Ruan. Quando essa turma se junta, a bagunça está feita e a vó, que não mede esforços, prepara tudo o que eles gostam. Quando acordam ela serve xibé - farinha de mandioca com água para alguns e açaí com farinha para outros. E ainda tem o X-Caboquinho, o queridinho dos amazonenses. O sanduíche consiste em: pão francês com manteiga, queijo coalho e pedaços de tucumã. Tucumã é uma fruta regional de cor laranja e com caroço maior que a massa. 

Não é só de tucumã que vivem os amazonenses, mas de todas as frutas que encontraram no Amazonas terra fértil e clima propício para sustentar a fome de muita gente: cupuaçu, açaí, castanha, buriti, bacaba, pupunha, cucura, abiu e cubiu. Ao comer frutas como banana, manga e abacaxi, a sensação é de que foram mergulhas no açúcar. Todas muito saborosas.

Outro acompanhamento indispensável para os amazonenses é a farinha de mandioca. De cor amarela e com pedrinhas grandes, no peixe e no arroz, a farinha está presente em todas as refeições dos amazonenses. Garfo e faca não são muito bem-vindos à mesa, é a colher que ganha espaço e não é só no prato da criançada. Adultos também usam.

Em cada quarto, uma rede. E há quem não consiga dormir na cama, como Dona Aracilda e a Albertina. E dormir por aqui, só a base de ar condicionado. As temperaturas são altas, entre 28 e 40 graus, o ano todo. Andar na rua, só com guarda-chuva e sombrinhas. Tem o sol e quando menos se espera chuvas fortes caem, mas elas não amenizam o calor, muito pelo contrário, o tempo fica ainda mais abafado. E para refrescar, as casas no interior do Amazonas não possuem chuveiro elétrico. Há quem prefira um banho nas águas negras do rio. Todo fim de tarde é possível ver adultos e crianças na água. 

Pelas ruas, moto é o que não falta. O que falta por aqui é capacete, placa, retrovisores. Não tem lei, não tem multa. A polícia não cobra e o povo já acostumou assim. Os carros e as motos que possuem placa, em sua grande maioria tem a identificação de Manaus e não de Santa Isabel. Os veículos também chegam na cidade nas balsas pelo Rio Negro. 

Ao contrário do que pensam os habitantes das demais cidades brasileiras sobre o Amazonas ser infestado de mosquitos e apesar do calor e da cidade ficar na orla do Rio Negro, há poucos mosquitos na cidade. Aliás, mosquito, pernilongo ou borrachudo são palavras que não se ouvem por aqui. Eles só falam carapanã. 

Boa parte da população trabalha em pequenos comércios e na área da saúde. Pescadores e vendedores de farinha e frutas tentam ganhar a vida com o que a natureza oferece. Não há indústrias ou qualquer outra fonte geradora de emprego e o dilema de muita gente é: como fazer uma compra no mercado? Os valores dos produtos são altos, pois os comerciantes pagam frete da balsa e a população de Santa Isabel só pode comprar o feijão e arroz básico para o sustento. Há um grande apelo dos comerciantes para vender carne. Eles expõem os pedaços do lado de fora dos estabelecimentos, fora da refrigeração. Não, não tem fiscalização. 

Conviver e acompanhar o cotidiano amazonense é uma experiência única. É uma escola que te ensina não reclamar da vida, ensina viver com tão pouco e partilhar o pouco que se tem. Uma escola que te torna apto a ser feliz de um jeito simples e te dá um certificado rico e raro que você leva no coração - para a vida toda. 

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