Ancorados às margens de Barcelos - Diário de bordo Parte II

Barcelos é um município do Noroeste do Amazonas. Colonizada por portugueses, a cidade foi sede da primeira capital do Estado em 1758. É o segundo maior município do Brasil e o primeiro do Amazonas em extensão territorial. Seu território é maior que o Estado de Santa Catarina e fica a 656 quilômetros de Manaus por via fluvial*. 



É em Barcelos que está localizada a maior cachoeira do Brasil, a Cachoeira do El Dorado com 400 metros de queda. Segundo o IBGE de 2015, a população do município era de 27433 habitantes. A economia é baseada na pesca do tucunaré e de peixes ornamentais; da macaxeira, do açaí e da castanha. 

Quando o assunto é Barcelos, o que mais se ouve falar é na disputa entre o Cardinal e o Acará-disco. Eu e o blog vamos descobrir o que é. 

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O café foi servido e pela janela do barco, a orla de Barcelos. Bancos de concreto e em um deles, um senhor de pele morena e cabelos brancos. Saio do barco e vou até ele para bater um papo.

Seu Antônio João Moreira carrega dois nomes de santo nos documentos e com orgulho diz: "E um deles é casamenteiro, por isso eu casei seis vezes e tenho vinte e nove filhos". Pescador por muito tempo, agora perto dos 60 anos de idade, Seu Antônio vive sossegado em Barcelos. Não nasceu na cidade, mas a adotou há mais de trinta anos. Todos que passam por ele, cumprimentam e fazem brincadeiras. 

Nas horas vagas ele senta ali, na beira do Rio Negro. É que a casinha com ferramentas fica em frente à orla, então, quando o trabalho na ferraria dá uma brecha, Seu Antônio atravessa a rua e fica a observar o que acontece na pacata Barcelos. 

-Para de beber, abençoado - grita ele para o homem de uma perna só e muletas que está do outro lado da rua. 

Barcelos, assim como Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira enfrentam problemas com o álcool. Adolescentes e adultos estão cada vez mais viciados.

-Aqui tá cheio de droga também, cheiram até naftalina. Não sobra pra colocar no guarda roupa. Esses meninos de 14 anos não vão plantar macaxeira igual a gente ia, eles só saem de casa pra roubar. 

E mudando de assunto, pergunto o que é esse tal Cardinal e Acará-disco. 

-São peixes pescados aqui. Todo ano tem o festival e os piabeiros* disputam pra ver qual é o mais bonito. 

Cardinal e Acará-disco é como se fosse Grêmio e Internacional ou qualquer outra torcida rival, mas o jogo aqui não é de futebol. É de peixe. É sempre no mês de janeiro que acontece o festival. Antes disso, bandeiras do peixe preferido são penduradas nas casas e grupos de danças se preparam para apresentações no festival. Apostas são feitas, uma comissão julgadora escolhe e o mais bonito é o vencedor. 

Barcelos é o município que mais pesca peixes ornamentais na Amazônia. Cardinal e Acará-disco são peixes de aquário e água doce. Encontrados em Igarapés e locais de água calma, o Cardinal chega a medir até 5cm e o Acará-disco até 15cm.

Seu Antônio levanta do banco e anda em direção ao carrinho do peixe que está se aproximando. É uma carrocinha com tucunaré. Recém pescado, o peixe amazônico é pesado na hora e entregue inteiro. Quando o vendedor segue pela rua, o ferreiro me convida para ver o seu estoque de castanhas. Estão na ferraria. Além das castanhas, sacos de carvão. Seu Antônio vende um pouco de tudo não só para sobreviver, mas também porque é um passatempo juntar castanhas e recolher carvão. E finalizando o bate papo com ele, me despeço e volto para o expresso. 

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Enfermeiros, pesquisadores, professores e tantos outros trabalhadores tiveram seu cronograma alterado e o incrível é que ninguém aqui reclama de nada. De absolutamente nada. Todas essas horas no barco, com calor e poltronas que não inclinam, nenhum "A" pode ser ouvido sobre o ocorrido. 

A tarde não demora a passar com filmes, livros e conversas. O sol lá fora arde e o ar condicionado aqui dentro não dá conta. O rapaz que veio sentar na poltrona próxima à minha se chama Eli. Ele é antropólogo e veio de Israel. Está indo para São Gabriel da Cachoeira para fazer pesquisas sobre os povos indígenas. 

É pouco mais de oito da noite quando o expresso chega para darmos continuidade à viagem. As malas são carregadas e às 21:10 seguimos para Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira. Deito e durmo até que alguém me acorda. É quatro horas da manhã e estamos aportando em Santa Isabel. Levanto e arrumo minhas coisas. Ufa! Cheguei. 

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*Por via fluvial. No Amazonas, as distâncias são medidas através de km aéreos e fluviais, uma vez que não há acesso por estradas para a maioria dos municípios. 

Comentários

  1. Agora entendi seu voo...viajar e viver e a arte de escrever nao e para todos. Aproveite seu talento.
    Ha muito que ver Brasil a fora...
    Que a Luz sempre ilumine seu caminho e aqueça seu coraçao.

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  2. Oi, fuçando a internet vim parar aqui neste relato rs
    Eu gostei, mas foi uma pena você ter passado rapidinho por lá. O mais legal de tudo é você ter encontrado logo o Seu Moreira, uma figura. rsrs

    Sou de Barcelos e atualmente moro em Manaus e temos u blog que fala de Barcelos. Acessa lá ^^
    http://barcelosamazonia.blogspot.com.br/
    Obrigado

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    Respostas
    1. Olá

      Que felicidade com este recado.
      O tempo foi curtinho, mas pretendo voltar. Estou em Manaus, amo as histórias do Amazonas e gostei do blog. Vou acompanhar.

      Obrigada, abraços

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