Um menino em extinção

Eles são brasileiros, mas brasileiros de um Brasil diferente. Um Brasil que não vive do capitalismo, mas dos valores culturais, das crenças e da natureza. Em algumas casas, chegam a ser motivo para intimidar crianças diante das traquinadas. Habitantes do norte do país, eles defendem a floresta dos garimpos ilegais.

Agora ele é Francisco. Até pouco tempo, não se chamava assim, nem tinha documentos. Poucos no seu mundo têm. Com orgulho e expressão serena, ele tira a carteira de identidade do bolso. No documento de Francisco Pukimabieteri, uma informação que o distingue dos demais brasileiros, abaixo do nome, sua ascendência: Yanomami.

Eles vivem da caça, da pesca e do artesanato. Moram em locais de difícil acesso, em meio à mata Amazônica, praticam seus rituais e acreditam no poder da pajelança. Usam pouca roupa, pintam o corpo e têm língua própria. Entre um paricá e outro eles tentam resistir à invasão e imposição da cultura dos brancos. Os Yanomamis seguem muito pouco os costumes dos inimigos da cidade.

Francisco é um dos mais de 19 mil yanomamis que vivem no Amazonas. O número é uma estimativa da Renisi – Rede Nacional de Estudos e Pesquisas em Saúde dos Povos Indígenas. Um dado tão comumente apresentado na mídia nacional. Francisco, assim como seu povo, é muito mais que um número. Além de habitarem o norte do Brasil, estão também na Venezuela.

Dezenove casas e 128 pessoas. Essa é a comunidade em que ele mora. Conhecida como Pukima Cachoeira, a aldeia fica nos arredores do Rio Marauiá, no município de Santa Isabel do Rio Negro. Quem nasce em Pukima leva a palavra como  prefixo no sobrenome. Francisco tem quatro irmãos. Duas meninas e dois meninos. Aos 27 anos, ele não mora mais com os pais. Construiu uma casa. As malocas dos yanomamis são de chão de terra.

- Elas são cobertas com palha e são fechadas na parte de trás, a frente fica aberta.

Antes da chegada dos brancos, os antepassados de Francisco dormiam em rede de cipó. Eles mesmos confeccionavam a cama. As casas dos yanomamis são construídas em círculos e no meio fica um terreiro para as atividades.

- A gente dança e cheira paricá.

A dança começa a partir das três horas da tarde. Todos os dias eles anoitecem e amanhecem no ritual.

- As mulheres dançam das oito horas à meia noite e os homens das três até às seis da manhã.

Quando a dança termina, os homens vão para o banho. É para não dar sono. O dia amanhece e é hora de ir para a floresta, caçar, pescar e plantar.

Os yanomamis aceitaram, com receio e sem fé, os remédios dos brancos, mas nem por isso deixaram de acreditar no poder dos pajés, na cura pelas plantas e pelo paricá

- Quando a gente tem diarréia, essas coisas assim, a gente procura o pajé. Ele prepara o paricá.

Paricá é um rapé que os Yanomamis inalam. Retirado da casca da árvore ucuúba, planta da família da noz moscada, o pó é o remédio milagroso de muitos povos da Amazônia. 

- A gente tira a parte de dentro da casca, coloca em cima do fogo pra secar e depois recolhe o pó e cheira.


Ritual de despedida

Os Yanomamis não celebram aniversários, nem o nascimento de alguém. A grande festa é feita quando alguém morre.

- É uma festa feliz porque a pessoa tem que ir e não pode mais voltar.
                                                                                                                                                                   O espírito dela precisa descansar. Francisco explica que o ritual é uma celebração de felicidade, mas depois a família fica triste com a falta do ente.

- Quando a pessoa morre a gente prepara lenha, escolhe três pessoas pra queimar e coloca a pessoa que morreu em cima da fogueira.

Depois de cremado, os ossos são triturados e as cinzas, misturadas com mingau de banana e servidas para os familiares. 


No mundo dos brancos

Na terra de Francisco só quem trabalha tem carteira de identidade. Ele saiu das malocas para fazer um curso de agente de saúde. Foi a primeira vez que foi para a cidade. Quando chegou a Santa Isabel, achou tudo muito diferente.

- Tem muito barulho de moto e de carro.

Mas, o que Francisco mais estranhou na cidade foi o sistema capitalista. Ter que pagar pelas coisas.

- Lá na nossa comunidade, pode beber água de graça, comer banana, tudo de graça. Ninguém cobra nada não.

Ele não troca a floresta pela cidade. Diz que não acostumaria com tanto barulho. Francsico é microscopista e Agente Interno de Saúde, (AIS). Trabalha para o Distrito Sanitário Especial Indígena, o DSEI. Ele e o primo trabalham no posto de atendimento de Pukima.

- Eu trabalho um dia e ele outro.

Só tem uma coisa que Francisco e o primo não fazem no trabalho. O parto das mulheres.

- Elas já sabem quando vão ter o bebê. Elas têm o bebê em casa, ninguém pode ajudar. Não pode convidar nenhuma mulher, nenhuma outra pessoa pode ajudar.

Quando criança, ele gostava de flechar passarinho e calango. No rio, não brincavam, só tomavam banho. Agora ele gosta de assistir TV e ouvir rádio. Mas, só pode quando vai para a cidade. Sentado no sofá da casa de Dona Aracilda, de bermuda, camiseta e chinelo, Francisco conversa com os olhos fixos na TV. É fã do aparelho desde que assistiu pela primeira vez.

- Eu gostei muito. Queria levar uma lá pra aldeia, mas tuxawa não deixa.

Toda comunidade de Yanomami vive sob as ordens de um coordenador, o tuxawa.

- Ele olha se estão todos bem. Cuida pra não fala mal de ninguém.

O tuxawa e as normas das tribos não permitem que Francisco more em outro lugar, se não na aldeia. Eles não podem ir embora de onde nasceram. Francisco vai para a cidade com frequência, devido ao trabalho, mas nem pensa em morar na cidade.

- Tuxawa não deixa.

Nem pensa em violar alguma regra. Nada de bebidas alcoólicas, de paquerar meninas na cidade, levar objetos dos brancos para a tribo. Não existe uma “eleição” para escolher um tuxawa. O yanomami explica que todos já sabem qual será o próximo chefe.

- É a pessoa melhor de coração.

Aquela que nunca descumpre as regras, que desde criança é bem vista e querida por todos. Um tuxawa fica no poder por anos, décadas, até morrer.


***

Laucilene Lopes é napë. Em língua Yanomami, napë é inimigo. O termo foi utilizado pelos indígenas na época dos primeiros contatos com os brancos.

- Pra eles todo branco é napë.

Agora o termo é utilizado para nomear professores não índios e eles não são mais vistos como inimigos. Laucilene é professora nas comunidades Yanomamis. Ela mora na cidade, mas passa a maior parte de seu tempo nas aldeias. A distância não a permite retornar para casa todos os dias.

- No começo dá um impacto, mas depois acostuma. Pra trabalhar lá o mínimo que precisa é conhecer a cultura deles, se não a gente pode fazer alguma besteira.

Ela dá aulas de português, língua considerada estrangeira para os indígenas. Os professores de disciplinas como geografia, história e meio ambiente são yanomamis. Tudo é ensinado na língua materna deles.

- Eles saem de lá só para fazer os cursos.

Para exercer a função de educadores, os yanomamis precisam ter magistério. O Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami, conhecido como Secoya, organização não-governamental, é o órgão responsável pelos cursos de capacitação dos indígenas.  

- A Secoya faz os cursos uma vez por ano porque depende de financiamento de outros países também.

Com sede em Santa Isabel do Rio Negro, a Secoya é responsável também pelos projetos de educação nas comunidades. São três: Educação, Educação em Saúde e Desenvolvimento Sustentável.

- Até maio de 2009, a Secoya cuidava da saúde também, não só da educação, mas agora a responsabilidade é da Funasa.

A educação para os índios não funciona como nas escolas da cidade. Eles não precisam comparecer às aulas com obrigatoriedade.

- Tem dias que têm três, dois alunos. Às vezes só um, mas a gente dá aula pra quantos tiver.

Quatro dias de estudo e um de folga, é assim que funcionam as aulas. A folga serve para os alunos poderem fazer suas atividades na floresta e no rio, caçar e pescar. Os yanomamis não têm férias de escola.

- Quando morre alguém na comunidade, eles passam meses sem trabalhar, sem ir para a escola, para organizar a festa pra cremar a pessoa.

As salas de aula são frequentadas por filhos e pais. Todos estudam juntos, sem separação por idade ou série. A fase inicial de aprendizado é chamada pré-silábica.

- Eles ficam lá até poder ir pra outra série. Às vezes leva dois anos ou mais. O tempo a gente nunca sabe. Depende do desempenho de cada um.

Mesmo com o choque de cultura e a inaceitável invasão dos brancos às aldeias Yanomamis, eles continuam lutando. Querem viver sua cultura. Querem paz. Só isso. E se Curupiras existem, os Yanomamis são eles, protetores da floresta. Não sabem o valor material do ouro, das madeiras. Sabem do valor sentimental, do bem que a natureza lhes faz. Do silêncio do vento batendo nas folhas de árvores e das águas que correm calmas. Do canto dos pássaros, do pôr do sol e do céu negro estrelado. É disso que eles vivem.

***

Essa invasão que modifica a cultura Yanomami de um lado é a mesma que alimenta os sonhos de Francisco de outro. A verdade é que ele se sente útil, está trabalhando para o bem de seu povo.

Francisco conta o que mais gostou com a chegada dos brancos na sua comunidade.

- O que eu gostei foi de estudar...

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Encontro com o Yanomami

A entrevista com o Francisco foi a mais interessante. A que mais gostei. Ele estava desconfiado. Não sabia quem eu era, se podia me contar sua vida. Os Yanomamis não permitem a entrada de qualquer branco nas aldeias. Eles não se deixam filmar ou fotografar com facilidade, não revelam sua cultura, costumes e modo de viver. Muito do que se sabe é pelos napë e por médicos, enfermeiros, agentes de saúde. O Francisco perguntou ao Regis se podia confiar em mim e ele respondeu que sim.

As histórias de pajé, de viver da caça e da pesca, de fazer rituais, pintar o corpo, dormir na rede e morar em ocas, no meu imaginário, faziam parte só das aulas de história, de uma realidade muito distante, de uma época que não vivi e acabou. O Francisco mudou isso. Ele é personagem vivo dessa história que para mim não existia mais.  

Ele me fez pensar, e muito. Nós, “da cidade” temos muito, reclamamos muito e somos muito, muito mais infelizes que eles. O Francisco me fez acreditar em valores. Para eles, cultura é muito mais importante que qualquer outra coisa. Quantos Franciscos viveriam nas comunidades, se pudessem sair delas? Quantas aldeias estariam sem rádio e sem TV? É por isso que o tuxawa insiste em defender e proibir a mistura com a cidade. É que só assim eles barram o capitalismo, a cultura dos brancos e impedem que meninos iguais Francisco entrem em extinção.


Para deixar o encontro registrado, não, não peço para fazer fotos, eles não gostam, peço para que escreva algumas palavras em Yanomami na minha agenda. Pode ser bom dia, boa tarde, boa noite. 

    Foto:Keila Zanatto

Este texto é parte do livro Filhos do Rio Negro, de Keila Zanatto.



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