O triste fim dos irmãos Cabreira

Naquele cercado, os quatro porcos passavam os dias deitados na lama. Comiam o que lhes era dado. As tradicionais comidas de todos os dias eram oferecidas pelo dono. Todo fim de tarde Seu Pedro enchia o cocho do chiqueiro. Era a última refeição do dia. A fome dos animais aguentava esperar até o amanhecer, mas naquela noite foi diferente. Movidos por uma fúria inexplicável, os porcos se rebelaram e, como se soubessem o futuro que teriam na mão do homem, deram o troco. 

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Era viúva. Trazia no rosto a vida amarga estampada. Tinha traços fortes e pele queimada pelo sol. O cabelo preso agarrado às palhas do chapéu se dividia mais em fios brancos do que pretos. Trabalhava todos os dias da semana, em casa e na roça, com chuva ou com sol. Dona Ermínia criou três filhos. Dois homens e uma mulher. Moravam na mesma casa, a pouco mais de oito quilômetros do vilarejo - onde tudo aconteceu. 

Não há dados de quantos habitantes viviam pelo vilarejo naquela época. Acredita-se que em torno de 600 pessoas. Estradas de pedra, mata, animais, casas, carroças e muitas plantações. Somado aos comércios: açougues, armazéns, lojas, sapataria e bares; este era o cenário da vila. A cidade mais próxima ficava a quinze quilômetros de distância.

Era um domingo qualquer do ano de 1944. Inverno ou verão. Não se sabe ao certo porque alguns detalhes escorreram pelos dedos dos contadores desta história. Mas aquele dia em que, logo após o almoço, os filhos de Dona Ermínia saíram de casa, ficou na memória de muita gente e de muitas gerações. Conhecidos pelo sobrenome Cabreira, os dois irmãos encilharam os cavalos e deram benção para a mãe. Saíram assim que ela encostou na mão deles e disse: "Deus te abençoe". Eles iam passar a tarde no bar - o lugar de distração da maioria dos moradores do vilarejo. A filha ficou em casa. 

João era açougueiro. Ele também passava as tardes de domingo no bar. Depois de muitos copos, uma discussão pode ser ouvida por quem passava na rua. João e os irmãos Cabreira estavam alterados e todos queriam briga. Uma briga de dois contra um que obrigou João correr. Tudo poderia ter terminado ali, na hora que o açougueiro foi se esconder, mas levar desaforo para casa, não, jamais. Tudo poderia ter terminado ali, se João não tivesse se escondido justamente na casa dos Leniz.

No interior da casa, em meio à escuridão, um vulto apareceu na escada. Assustado com a confusão  Joaquim Leniz puxou o gatilho e acertou. O sangue escorreu pela lateral do rosto. Minutos depois, o atirador percebeu que se tratava do próprio irmão e não dos inimigos de briga. Mas não podiam parar, afinal, há poucos passos da escada, na porta de entrada, batidas ensurdecedoras podiam ser ouvidas. Do lado de fora, os irmãos Cabreira estavam munidos a facão e golpeavam a porta de madeira. Os barulhos podiam ser ouvidos pela redondeza. Ninguém se atreveu interferir. 

Pelo vilarejo, poucas pessoas. A maioria fechou as portas e janelas de casa. Não dava para arriscar. Todos por ali andavam armados, se não com armas de fogo, com faca ou facão. Era noite. Passava das sete horas quando João, Joaquim Leniz, seu pai e seu irmão ainda sangrando planejavam o que fazer. Os Cabreira não desistiam. Estavam destruindo a porta. Foi então que os Leniz chegaram num acordo. 

Os Cabreira correram alguns passos ao ver a porta se abrir. Joaquim ergueu o braço e disparou uma sequência de tiros nos irmãos. Eles caíram na lama, a porta da casa se fechou e um silêncio pairou no vilarejo. A poucos passos dali, de dentro do cercado e agitados, os porcos assistiram a execução. Algumas portas se abriram e o vilarejo se aproximou dos corpos. Um dos moradores montou no cavalo e seguiu pela estrada. Pelos oito quilômetros que percorreu, pensou qual seria a forma menos dolorosa de dar a notícia à Dona Ermínia, se é que tinha. 

Na casa dos Lenzi todos saíram. Foram para a cidade fazer curativo no machucado do tiro acidental e chamar a polícia. Os corpos esticados na lama do vilarejo passaram a noite lá, pois a polícia só chegaria no outro dia, e para surpresa dos vizinhos, o cheiro de sangue despertou a fúria dos porcos que se soltaram e avançaram nos Cabreira. Seu Pedro foi avisado e fechou-os no cercado, mas durante a madrugada eles conseguiram fugir. 

O dia não amanheceu para Dona Ermínia porque ela passou a noite em claro. A notícia dos dois filhos mortos a colocou numa escuridão mesmo quando o sol já estava ali. Foi uma noite dolorosa e o pesadelo estava longe de amenizar. Com os olhos pequenos, montou no cavalo e foi até o vilarejo. Já sabia que veria os filhos mortos, o que não esperava era encontrar um deles com o rosto desconfigurado. Havia sido devorado pelos porcos. Naquele momento, o coração de Dona Ermínia se despedaçou ainda mais e tomada por dor e ódio esbravejou: "Eu quero que esse vilarejo se acabe, que nunca mais vá para frente". 

O assassinato dos irmãos Cabreira é contado de geração para geração e desde aquele dia de 1944, muita coisa mudou no vilarejo. Não existem mais açougues, bares, armazéns e nem 600 pessoas. Restaram aproximadamente 80 e quando relembram o quanto desenvolvido era o lugar, ninguém fala em êxodo rural. Todos lembram da praga rogada pela dor de Dona Ermínia. 


*O texto é baseado em fatos reais, mas somente o sobrenome Cabreira corresponde ao acontecido, os demais nomes são fictícios. 

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