A história de um menino azul

Meu nome é Fernando. Eu nasci em setembro, no dia 02, em Maringá (PR). O céu estava azul e a terra vermelha. Eu moro numa cidade bem tranquila, perto de onde nasci. Ela se chama Itambé. É aqui que eu brinco, faço inglês, karatê e vou para a escola. 

Minha mãe é professora. Ela queria que a primeira palavra que eu dissesse fosse mamãe. Mas eu não disse. Meu pai é advogado. E, como vocês já sabem, ele queria que eu falasse papai. Mas eu não falei. Nem mamãe, nem papai, nem nada. 

Eu gosto de brincar com miniatura de carrinhos, mas eu não gosto de brincar com outras crianças. Eu prefiro brincar sozinho. Eu amo letras e números. Histórias em quadrinhos e jogos de computador. 

Quando eu estava com dois anos e meio, meus pais me levaram no médico. Eu não estava doente. Eu nunca falo quando dói alguma coisa em mim. Mesmo assim me levaram. Eles estavam preocupados porque eu não falava mamãe. Nem papai. Nem nada. Eu não queria falar. Não me comunicava com eles. É que no meu mundo, a gente não gosta de conversar, nem ouvir o que as pessoas falam e perguntam. Quando voltamos do médico minha mãe disse que eu ia começar a ir para a escola. Esse foi o remédio que ele passou para minha mãe. 

Eu comecei a ir para a escola e os meus professores escreveram uma carta para os meus pais. Eles contaram que eu não brincava com os coleguinhas, eu só pegava no braço deles para eles pegarem os brinquedos pra mim. Eu não olhava nos olhos de ninguém e, contaram até que o barulho que as crianças faziam me incomodava muito. Meus pais levaram a carta para o médico. 

Minha mãe disse que o chão dela sumiu e que se sentiu traída, com um sentimento muito estranho quando a médica disse que eu era autista. Ela ficou sem saber o que fazer. Ela não acreditou e decidiu me levar em outro médico. 

Eu tinha 3 anos e ainda não falava. O novo médico disse para os meus pais que eu apresentava sintomas de uma tal de Síndrome de Asperger e que meu comportamento é diferente das crianças autistas. Foi então que minha mãe falou que eu tinha paixão por letras e números. O médico pediu para ela escrever muitas palavras e, para surpresa de todos, eu li todas elas. Eu estava falando. Nessa hora eu quis mostrar que sabia ler. Eu quis contar que eu lia, eu só não falava porque, como já te contei, no meu mundo a gente não gosta de conversar. 

Meus pais ficaram muito felizes. Me deram livros e gibis. Agora eu já tenho 6 anos e converso bastante. (Para o meu mundo é bastante). Eu faço terapias na fono e na psicológa, elas me ajudam muito. Eu também já consigo brincar com outras crianças. 

Luís Fernando, Fernando e Denizia. 
Foto: Keila Zanatto 

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Hoje é o dia de sorte do Fernando. Ele está no shopping. Ele ama shopping e coisas de cidade grande. E ao passar por um dos corredores, a sorte aumentou. Ele encontrou um grupo de pessoas da Rede de Amigos e Familiares de Autistas de Maringá - Rafam - e ganhou 5 fichas para brincar na sala de brinquedos do shopping. 

Enquanto ele brinca, os integrantes da Raiam distribuem panfletos e ajudam a espalhar informações sobre o mundo dos autistas. A Síndrome atinge cerca de 2 milhões de brasileiros e possui três características percebidas facilmente: dificuldade de comunicação, socialização e padrão de comportamento restritivo e repetitivo. O autismo pode ser classificado nos seguintes tipos: Autismo Clássico; Autismo de alto desempenho e Distúrbio global do desenvolvimento. O Fernando se enquadra no Autismo de alto desempenho porque ele não apresenta atrasos cognitivos. 

Einstein, Newton, Nikola Tesla, Alan Turing, Steven Spilberg. Grandes gênios do mundo que, segundo estudos, tiveram a Síndrome de Asperger. Não é possível afirmar porque nem todos passaram por diagnósticos e a descoberta é recente. O primeiro estudo foi feito em 1944 pelo pediatra austríaco Hans Asperger, mas devido à guerra mundial e a fatores de comprovação e popularização, só em 1990 foi possível um diagnóstico mais preciso, mesmo assim ainda há muitas controvérsias. Em 2013, a Síndrome de Asperger passou a ser considerada um espectro do Autismo. 

As principais características de um portador de Asperger são: falta de interação social, repetição e restritividade de comportamentos, atividades e interesses, atrasos no desenvolvimento da linguagem. Interesse excessivo por um assunto específico, fala monótona, e inaptidão à atividades físicas. 

Cada caso de Autismo deve ser observado e tratado individualmente. Cada ser apresenta características diferentes e precisa de tratamento específico. 

Ali, entre um brinquedo e outro, não é possível perceber que o Fernando é autista. O diagnóstico precoce e o tratamento com a fonoaudióloga e psicóloga estão contribuindo para que ele interaja e se comunique normalmente. As fichas para os brinquedos acabaram. É hora de continuar o passeio e ver se a sorte vai junto.

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