Memórias de um lugar chamado sótão

Aquela escada de madeira escura brilhava. A cor das nossas roupas refletia nos degraus, e de tanto tempo que ficávamos ali no pé dela querendo subir, era possível ver coisas que não existiam e ouvir outras que só nossos ouvidos ouviam. E lá em cima, entre o assoalho podre, os barulhos e o teto encostando em nossas cabeças, uma sensação florescia dentro de nós. De medo misturada com a alegria de estar em uma "cabana" e de, à noite, alcançar as estrelas pela janela. 

    Imagem: Google

O sótão da casa que a minha mãe morava tinha 4 quartos, 8 camas de casal e, quando o assunto era pessoas, o número dobrava. Isso. Eles dormiam em 12 pessoas (ou mais). Quem casava ganhava um quarto no andar debaixo. Toda noite, na hora de dormir, depois de ajoelhar e rezar, a bagunça corria solta. À luz de vela com querosene,  a turma se reunia para jogar baralho em cima das camas e, foram muitas as vezes que amanheceram com a vela acesa e as cartas espalhadas. Em outras noites, enquanto o sono não vinha, eles deixavam as portas abertas e ficavam horas conversando no escuro.

Eu e meus primos brincamos pouco tempo na casa da família da minha mãe. Ela foi desmanchada e restaram as histórias, a saudade e a felicidade no coração dos 12, 13, 14 irmãos da minha mãe. 

Na minha infância, todas as casas com sótão eram extremamente velhas. Tinham sido dos avós e depois dos pais dos meus amigos. Eles moravam no andar entre o sótão e o porão, mas ali naquela sala gigante, cozinha gigante e corredor cheio de portas de quartos gigantes não tinha graça brincar. Em alguns lugares da casa, a madeira estava tão velha que eu e meus amigos éramos proibidos de ir. O pior de tudo era que um destes lugares era justamente o sótão - nosso lugar preferido.

Nossos brinquedos eram simples, mas a nossa imaginação era incrível. O sol batia nas telhas e ao longo do dia, o calor reproduzia barulhos no assoalho. Na nossa cabeça nunca era o sol, mas alguma coisa de casas mal assombradas. Os quartos não tinham guarda roupa, só camas de molas e travesseiros de pena. Pelos cantos, caixas de papelão com brinquedos velhos, revistas e livros amarelados. 

O sótão era a nossa diversão, mas durava pouco porque lá embaixo alguém tinha percebido nossa ausência e, um chamado acabava com toda a diversão, com toda a imaginação. E a tristeza de ter que brincar lá embaixo durava só até, de fininho, sentarmos no primeiro degrau da escada e, aos poucos a imaginação  já estava ali novamente junto com o medo de encarar os velhos e barulhentos degraus que davam no topo da nossa felicidade. 

Comentários