Abrem-se as cortinas: Ana Paula Beling

O sinal tocou. Era hora de formar fila e voltar para a sala de aula. Samanta e Ana estavam juntas, quando de repente apareceu a professora e disse:
- Samanta, vamos?
- Aonde vocês vão? Eu quero ir junto – disse Ana.
A professora ficou pensando, por instantes, em como falar para Ana, sem magoá-la, que a Samanta ia ensaiar uma música para apresentação do dias dos pais. Decidiu então levar as duas para a sala dos professores. Colocou o CD para tocar e pediu para Samanta cantar. Em seguida pediu à Ana e, se surpreendeu. Naquela hora, a professora teve certeza que a homenagem aos pais seria de arrepiar com a voz da pequena. O que ela não sabia é que nascia ali um talento, uma profissão e uma história de orgulho para o avô e a família. Então, pediu à Samanta que voltasse à sala de aula.

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Sorriso leve, cabelos lisos e castanhos a combinar com os olhos. Ela é menina, mulher e decidida. Tem personalidade forte, é perfeccionista. Não gosta de mentiras e violência. Sonha ser mãe. Gosta de animais, livros, filmes, da cor roxa e de olhar o mar. Alimenta-se de figurinos, maquiagens e música. Escolheu o mundo das artes. Vive em palcos e camarins, entre coxias e aplausos. Ela nasceu em janeiro, no verão de 1991, em Itajaí, SC. Daqui pra lá e de lá pra cá, ela é Ana. Ana Paula Beling. 

Foto: Arquivo pessoal de Ana

Aos oito anos, depois de sair vestida de bailarina de dentro de uma caixa e cantar, na apresentação do dia dos pais na escola, Ana passou a sonhar com a vida de cantora. Este se tornou também o sonho do avô que, juntamente com a professora, incentivaram os pais de Ana a colocá-la em aulas de canto. Foram quatro anos de canto, violão e muito aprendizado até que o primeiro lugar de um festival a colocou no Coral da Universidade do Vale do Itajaí. Ela tinha 12 anos e era a única estudante não acadêmica do grupo. Passou a ter uma rotina de apresentações, gravações e viagens que durou até os 17, quando decidiu deixar o coral. É que há anos, antes mesmo da música, outra paixão tinha brotado no peito de Ana, e agora, esta parte do coração bateu mais forte.

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Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida


Esta é Beatriz. Um trecho de uma das mulheres de Chico Buarque. A música preferida de Ana. É também sua musa, inspiração e retrato. Nas mãos de Ana, com muito cuidado, amor e dedicação, Beatriz ganha vida e é adaptada para os palcos. A peça, interpretada por Margarida Baird, traz a história de uma atriz que está se despedindo de sua carreira teatral. Margarida, que já fez trabalhos com grandes nomes do teatro e da TV, canta músicas de Chico Buarque na apresentação, juntamente com o som do violão de Pedro Loch, a flauta de Larissa Galvão e a percussão de Carol Miranda – todos dirigidos pela Ana. Beatriz estreou em julho de 2011 e ficou em cartaz até 2014.

E de Beatriz, Ana teve vontade de dar vida a mais uma peça. Uma peça teatral autoral por inteira. Músicas, texto, tudo. Onde pudesse escolher com quem trabalhar. E mais, colocar seus questionamentos, emoções, dores e as angústias de um relacionamento que viveu. Durante um ano e meio a mulher que existia dentro de Ana foi sufocada. Ela queria falar dos desmerecimentos e do estupro psicológico que passou durante o namoro. Tirar de dentro de si todos os ferimentos causados por afirmações como “tire esse chinelo e coloque um salto alto”. Ela sentiu necessidade de fazer alguma coisa por ela mesma. Por outras mulheres. E para isso, usaria o teatro. Para dar o seu grito. Para resgatar a mulher que é. E também para salvar outras mulheres.

Mas, que mulher seria essa?

Uma mulher que pudesse representar todas as mulheres brasileiras, ou do mundo inteiro. Que lutam pelos seus direitos, sonhos e liberdade. Que clamam por respeito. Uma mulher como Ana, que abomina violência. Violência contra a mulher. Uma mulher que, entre tantos desejos, possa ser mulher. Apenas mulher. Livre. Vestir o que quiser. Ser o que quiser. Andar por onde quiser. Sem perigo. Sem olhos ameaçadores. Sem palavras que machucam. Sem dor. E dessa dor, nasceu Avessa. A primeira peça autoral de Ana.

Avessa subiu aos palcos em março de 2015, no teatro Bruno Nitz, em Balneário Camboriú (SC), sob a direção de Rafael Orsi de Melo – namorado de Ana. Escrita cuidadosamente pelo dramaturgo Gregory Haertel e embalada pelo som de Larissa Galvão e Pedro Loch, Avessa traz o estupro, a violência contra a mulher. Na peça Ana não poderia deixar de ser a atriz e de cantar. A música foi composta exclusivamente para o espetáculo. Avessa tomou forma e nasceu do chamado “processo colaborativo”, onde ninguém manda em ninguém, mas todos opinam e trabalham juntos. Sem hierarquia. Avessa está solta por aí. De palco em palco. Em outras cidades e eventos. 

Cena de Avessa. Foto: Diego Miranda

O teatro apareceu pela primeira vez na vida de Ana aos seis anos de idade, na escola. E durante todo o período escolar a paixão foi florescendo cada vez mais. Entre uma peça e outra, a paixão pela música andava junto e ela sonhava cursar faculdade de música. Aos 16 entrou para o Curso Básico de Teatro, em Itajaí, ministrado por Valentim Schmoeler. Um mês depois ela estava no grupo teatral AECA – Alunos do Exercício Cênico Anchieta e então, o sonho de ser atriz foi visto como profissão. Escolheu cursar Licenciatura e Bacharelado em Teatro na UDESC, assim, seria mais fácil unir suas duas paixões: a música e o teatro. Agora ela é também Mestre em Teatro. Atualmente trabalha como atriz independente e canta em eventos a convite.   

E aqui, sentada tomando um suco de laranja e contando sua história, Ana cita a frase de Ana Clara Joly, artista plástica e cenógrafa de Avessa: “Somos estupradas o tempo todo psicologicamente”. E eu, nessa hora, percebo que nós mulheres somos todas Avessas. Somos mais Avessas do que imaginamos.  


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