Fase dourada da vida e suas mudanças

Os passos lentos e a cor dos cabelos não escondem a idade. Seu Joaquim deve ter aproximadamente 75 anos. É quase onze horas de uma manhã chuvosa, mesmo assim ele vai ao supermercado, vagarosamente. Procura alguma coisa entre as prateleiras e para diante da de chocolates. Pega um, dois, três, cinco, oito ovos de chocolate. Não, não é Páscoa! São os famosos ovos com brinquedos. Com o braço apoiado na barriga, Seu Joaquim, carrega as guloseimas até o caixa e comenta:

- Hoje é aniversário da Laurinha. Ela tá fazendo 7 anos.

"É sua neta?" Pergunta a atendente.

- Não. Ela é filha do sindico do prédio onde moro.

De cabeça baixa, ao abrir a carteira para fazer o pagamento, em voz suave, Seu Joaquim continua:

- Sabe, quando ela tinha 5 anos de idade, me viu sentado na frente do prédio e veio correndo, sentou no meu colo, me deu um abraço e disse: "Eu te amo. O senhor mora no meu coração". Eu fiquei tão emocionado que não conseguia mais falar. Um pedacinho de gente daquelas me falar uma coisa dessas!

Dois anos depois, a emoção ainda bate forte quando Seu Joaquim relembra. Ele pega o pacote com chocolates e saí do supermercado do mesmo jeito que entrou, com passos lentos, só que agora os olhos brilham, cheios de água.

***

A infância é a fase mais importante da vida do ser humano. A mais gostosa, a de mais energia. É aquela que a gente brinca, pula, dança, chora, dá gargalhadas, fala o que quer e o que pensa com muita naturalidade, na maior inocência, sem sentir vergonha de nada, sem se preocupar.

Época boa, que a gente confia, vai no colo, estende os braços, brinca com quem não conhece e chora no ombro de pessoas desconhecidas. É que mentira, preconceito, maldade e falsidade não fazem parte da nossa infância. Infelizmente, isso a gente vê e aprende mais tarde.

É nessa fase dourada da vida que aprendemos grande parte das regras da sociedade. Nascemos “nus e crus”. Nem as necessidades básicas de sobrevivência nós sabemos. Precisamos que alguém nos conduza até o peito da mãe, nos ensine a falar, andar, comer, ler e escrever.

A infância é a fase que molda o ser humano. Tudo o que acontece nesse período reflete na adolescência e na vida adulta. Família e escola são as bases que mais influenciam a pessoa que vamos nos tornar. Mas, existe outro fator de fundamental importância. Ele se chama sociedade.

Entre uma conversa e outra, de geração para geração, sempre ouvimos dizer “os tempos mudaram”, “na minha infância eu não tinha essas coisas”, “era tudo diferente”. Sim, nossos pais e avós tem razão. Muita coisa mudou da infância deles para a nossa, e provavelmente, muito ainda vai mudar. O avanço tecnológico e os acontecimentos da sociedade estão em constante mudança e somos “obrigados” a nos adequar a essas exigências.

Enviar cartas pelo correio para amigos para saber como estão? Corre-se o risco de nem receber resposta. E com tantas redes sociais e programas de mensagens instantâneas, ninguém mais espera semanas para receber notícias. Aquelas brincadeiras de roda, pega-pega, esconde-esconde foram trocadas por um isolamento com o computador e a diversão da criançada passou a se chamar vídeo game, notebook, tablet, ipod. Essa era pode até deixar as crianças mais desenvolvidas, inteligentes, mas, cá entre nós, ela perdeu a essência, o que tem de mais intenso: a convivência, o contato, a companhia do outro.

Meninas onde estão suas bonecas? Meninos e o futebol com traves marcadas com os próprios calçados? Cadê a algazarra da rua? Os choros e as gargalhadas das rodinhas de colegas que se encontravam para jogar brincadeiras inventadas? Cadê o abraço, o pegar na mão na roda de ciranda? Os amigos da sociedade atual estão na tela do celular, no facebook.

É os tempos mudaram, na minha infância tudo era diferente.


Enquanto alguns tentam se adaptar com a nova geração, outros se perguntam: do que as crianças vão brincar daqui a 20 anos? Entre mudanças e incertezas nos resta saber também até quando meninas como a Laurinha, com cinco anos de idade, vão correr no colo de pessoas mais velhas e dizer que as amam? Que isso não se perca.  

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