Pinheirinho de saudade


Quando a gente é criança, dezembro nunca chega. Lembro de passar meses lavando louça e arrumando as camas porque minha mãe sempre dizia: “Pensa que vai ganhar presente do Papai Noel se não obedecer e ajudar.” Eu virava uma menina exemplar da metade do ano em diante.

Mas, eu não me importava muito com presentes porque tudo o que eu pedia, meu pai falava: “tem coisas mais importantes pra comprar primeiro” e então eu passava um Natal, uma Páscoa e um aniversário pedindo o mesmo presente, até ganhar. Agradeço até hoje por ele nunca ter me dado o que eu queria. Aprendi muito com isso. Eu só me importava com o pinheirinho. Até porque, naquela época, as árvores eram de verdade e minha maior alegria no Natal era montar o pinheiro. Mesmo que espinhasse.  

Minha mãe pegava o machado e a gente ia para a mata procurar um que não fizesse falta em meio à tantas árvores e, escondidas do nono que não queria que arrancássemos. Agora sim, desculpa aí natureza, mas roubar um pinheirinho teu era a minha maior alegria na inocência de criança. O corte tinha que ser feito em V para ele não secar tão rápido e usávamos comprimidos vencidos na terra do balde para prorrogar a vida dele.

Colocar os enfeites era outra hora de muita alegria. Enfeites muito antigos que minha mãe sempre me lembrava: “são ainda da casa velha da nona”. E todos, sem exceção eram de um material muito fino. Pareciam quebrar só de olhar para eles. Depois de pronto e, sem luzes porque a gente não tinha, era hora de subir nas árvores para tirar “barba de bode” e arrumar o presépio. Era uma casinha minúscula e quebrada.

À noite minha mãe colocava um prato com bolachas porque segundo ela, o bom velhinho passava todos os dias depois que montávamos a árvore e como ele tinha muitos lugares para ir, ficava com fome. No outro dia eu ficava triste porque sempre tinha algum enfeite no chão, quebrado é claro, mas ficava feliz porque o Papai Noel tinha comido as bolachas. Anos depois perguntei pra minha mãe quem comia as bolachas já que ele não existia e eu achei um barato quando ela disse que guardava na lata de onde tinha tirado.

A gente montava a árvore uns três dias antes do Natal e todas essas noites eu nem dormia direito. Acordava e ia conferir se tinha presente. Minha mãe escutava e dizia: “Volta dormir, não é hoje, é depois de amanhã”. Por isso que eu digo que Natal demorava uma eternidade para chegar. E alguns dias depois do dia 25, minha felicidade ia junto com os galhos secos do pinheirinho.
Meu Natal hoje é isso. São as lembranças da infância, de uma época de magia, onde a gente acreditava em Papai Noel até a adolescência, onde a gente ganhava poucas e simples coisas e era feliz com as espetadas dos espinhos da árvore, com o cheiro da barba de bode e com as bolachas que sumiam no prato.

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